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sábado, 30 de julho de 2011

QUADRILHA ENVOLVIA POLICIAIS MILITARES, CIVIL E FEDERAL, MILITAR E ASSESSOR PARLAMENTAR

O fim de uma 'superquadrilha S/A'. Operação da Draco: entre os 14 presos, PMs, delegado federal, inspetor, militar da Aeronáutica e assessor parlamentar. O GLOBO, 28/07/2011 às 00h16m; Athos Moura, Gabriel Mascarenhas, Taís Mendes e Vera Araújo


RIO - Representantes de três forças de segurança foram presos na quarta-feira por chefiar uma milícia que explorava moradores e comerciantes de Jacarepaguá há 13 anos. De acordo com as investigações, iniciadas há seis meses, um delegado aposentado da Polícia Federal, um comissário da Polícia Civil e um soldado da Polícia Militar comandavam o grupo, que movimentava R$ 200 mil por mês com a cobrança de taxas. A quadrilha, acusada ainda de homicídios e estupros, também exercia influência em delegacias da área, para desqualificar vítimas que ameaçavam denunciá-la. No total, 14 pessoas foram presas . O armeiro da quadrilha, segundo denúncia do Ministério Público estadual, é o assessor parlamentar Evaristo da Silva Alves, que trabalha na Assembleia Legislativa.

As investigações foram feitas pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP. A Operação Tríade - nome que faz referência ao fato de os chefes do bando serem de três polícias diferentes - começou por volta das 4h. Foram mobilizados 120 agentes, que saíram às ruas com 16 mandados de prisão e 35 de busca e apreensão, para cumprir nas zonas Oeste, Sul e Norte da cidade. Com a ação de quarta-feira, já são cerca de 800 milicianos presos no Rio, sendo 70 apenas este ano.

Segundo o delegado Alexandre Capote, titular da Draco, o bando funcionava como uma empresa:

- As atribuições eram bem definidas e, entre elas, estava a de tentar desmoralizar pessoas que ousavam enfrentar a milícia. Os milicianos iam à delegacia local para acusá-las de falsos crimes, como injúria, ameaça e até tentativa de homicídio.

Para o subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança, Fábio Galvão, o fato de os criminosos fazerem registros de ocorrência acusando as vítimas é inusitado:

- Essa milícia inovou.

De acordo com o promotor Décio Luiz Gomes, a quadrilha tentou desqualificar vítimas até mesmo dentro do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado:

- Um dos réus compareceu ao Gaeco para acusar uma vítima - disse. - Para azar deles, a investigação já estava em curso, e só registramos o fato inusitado.

Além dos 14 acusados presos com base em mandados expedidos pela 1ª Vara Criminal de Jacarepaguá, um homem foi detido em flagrante usando roupas do Bope. Ele foi liberado após prestar depoimento e responderá em liberdade a inquérito por contravenção penal. Ainda durante a operação, seis armas e 64 projéteis, de diferentes calibres, foram apreendidos.

O delegado aposentado da PF Luiz Carlos da Silva, apontado como um dos chefes da quadrilha, foi preso em casa, num sítio na Rua Vale da Pedra Branca, em Jacarepaguá, onde aconteciam as reuniões do grupo. No caso dele, também houve flagrante de crime ambiental, por manter em casa uma arara e um papagaio. Os animais foram apreendidos e encaminhados ao Ibama. De acordo com as investigações, o policial aposentado estabelecia o valor das taxas de serviços clandestinos, como TV por assinatura, venda de gás e segurança.

Policial civil dizia 'mandar em DP'

O comissário Eduardo Lopes Moreira, da 28ª DP (Campinho), era o matador do bando, segundo o MP. De acordo com as investigações, ele era encarregado de eliminar traficantes, usuários de drogas e ladrões. Seu nome era usado para intimidar moradores. A denúncia do MP informa que ele se aproveitava do fato de ser policial civil para ter acesso a informações da 32ª DP (Taquara). Eduardo dizia "mandar na delegacia". Além disso, o comissário era responsável pelo serviço de segurança clandestina. Eduardo atuava com o filho, o PM Felipe Lopes Moreira, também preso ontem, que patrocinava festas e organizava eventos para soltar balões.
Arara é apreendida na casa do delegado aposentado acusado de chefiar milícia / Foto: Marcelo Piu

Já o PM Thiago Rodrigues Pacheco, do 20º BPM (Mesquita), o terceiro chefe do grupo, controlava o transporte alternativo, o comércio de botijão de gás, a venda de TV por assinatura clandestina ("gatonet") e o serviço de acesso ilegal à internet em banda larga ("gatovelox"), entre outros serviços que davam lucro ao bando.

Segundo o delegado Capote, o grupo é acusado de homicídios qualificados, estupro, agiotagem, tráfico de influência, crime ambiental e esbulho (usurpação) de propriedades, entre outras ilegalidades. A milícia também explorava caça-níqueis e cobrava por distribuição de água encanada, retirada ilegalmente de uma represa. A quadrilha atuava desde 1998 nas localidades de Pedra Branca, Santa Maria, Pau da Fome, Estrada dos Teixeiras, Estrada do Rio Pequeno e Estrada do Rio Grande. Os milicianos ostentavam armas e facões, mesmo à luz do dia. A taxa de segurança custava R$ 35 e, para garantir o domínio na região, os bandidos influenciavam a escolha dos presidentes das associações de moradores.

- Quem não se submetia às regras era expulso ou morto pelo bando, que em seguida se apropriava dos terrenos das vítimas. Identificamos vários homicídios e muitos ainda estão sendo investigados - disse o delegado da Draco, acrescentando que o bando também é acusado de ocultação de cadáveres, torturas, lesões corporais graves e invasão de residências.

Segundo as investigações, o grupo ameaçava os moradores com possíveis invasões de traficantes:

- Quando alguém não aceitava a cobrança das taxas, eles diziam que iam abrir a guarda para que chefes do tráfico expulsos pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) se instalassem em Jacarepaguá. Tentavam coagir a população com isso - contou o promotor Décio Luiz Gomes.

A polícia tem informações, ainda sob investigação, de que as iniciais do PM Thiago são usadas em vans e mototáxis que circulam na área. Além disso, um adesivo nos veículos teria a inscrição "Thiago Pacheco vem aí". A frase seria o salvo-conduto para os veículos não serem parados em blitzes.

Também foram presos o guarda municipal Ubirajara Ferreira da Costa, o militar da Aeronáutica Aníbal Ramos e os advogados Kleber Gomes Lima e Mauro Arthur Ribas, que integrariam o segundo escalão do grupo. De acordo com a polícia, os advogados eram encarregados de falsificar documentos para legalizar terrenos invadidos pela milícia.

- Eles expulsavam moradores de terrenos que interessavam à quadrilha - disse o delegado da Draco.

Os outros presos são José Carlos Lins Teixeira, Evaristo da Silva Alves, Edison Dias de Moura, Luciomar Anselmo Sant'ana Lima, Francisco Antônio Ximenes Feijão e Elias Bezerra da Silva. Continuam foragidos Sérgio Augusto Ferreira e o militar da Aeronáutica Edezio Réboli do Nascimento.

A Draco e o MP contaram com o apoio da Corregedoria Geral Unificada, da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança e da Ordem dos Advogados do Brasil.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Só esta frase define bem a periculosidade da quadrilha - " Quem não se submetia às regras era expulso ou morto pelo bando, que em seguida se apropriava dos terrenos das vítimas ". As polícias têm se esforçado no combate ao crime, pena que este esforço não estimula uma justiça coativa e nem um parlamento comprometido com a ordem pública.