ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

BANDA PODRE MACULA VITÓRIAS NA SEGURANÇA

EDITORIAL O GLOBO, 15/07/2011 às 17h07m

O episódio do assassinato do garoto Juan Moraes Neves consolida a evidência de que dois organismos distintos agem dentro das polícias do Rio. Um, representado por números que atestam o acerto da política de segurança do governo fluminense das delegacias e batalhões da PM para fora, com seguidas quedas nos registros de modalidades de crimes cuja curva ascendente, até pouco tempo, parecia impossível conter. O outro corpo, danoso, move-se das portas das unidades policiais para dentro, mas com reflexos externos - do que a execução do menino de 11 anos é a mais recente e emblemática demonstração.

As ações dessa banda podre, teimosa e desafiadoramente impermeável à correição, se sucedem na contramão de um bem definido programa de ação do governo estadual, que visa a mudar hábitos policiais, melhorar o desempenho de agentes públicos da ordem e aumentar a confiança (consequentemente o apoio) da população na guerra contra a criminalidade.

No caso Juan, tachado de vergonhoso pelo secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, revelou-se quase didaticamente o modo de agir da banda que deslustra a polícia - da captura do garoto por um grupo da PM que age com características de esquadrão da morte, passando pela tentativa de dar sumiço ao corpo da vítima até, tendo essa macabra manobra falhado e aparecido o cadáver do menino, a intervenção do corpo técnico da Polícia Civil com um laudo suspeito que quase embaralhou as investigações.

Mesmo que esse revelador episódio não tivesse ocorrido, há outras evidências de que germina um tumor maligno no organismo de segurança do estado. Uma delas - o registro de eufemísticos "autos de resistência" nos confrontos com policiais em que há morte do opositor - pode ser medida em números: estima-se que a cada dia pelo menos dois casos desse tipo sejam lavrados nas delegacias fluminenses.

Houve uma inegável redução na estatística desses registros desde 2007, ano em que o governo Sérgio Cabral ainda operava com a estrutura e a cultura policiais herdadas de administrações passadas. Mesmo assim, a curva atual é inaceitável. Os autos de resistência são, quase sempre, execuções feitas por agentes públicos, a mão armada do Estado que deveria agir para inibir a violência, e não cevá-la. Práticas como essa, bem como outras demonstrações de desapreço no varejo pela vida humana, são incompatíveis com o compromisso de mudar a polícia.

A impunidade dos maus policiais tisna uma corporação que tem buscado reverter o sentimento de desaprovação da população, graças a acertados movimentos de combate à violência. Caso, por exemplo, do sucesso das UPPs, com reflexos na melhora dos indicadores de crimes e no inegável aumento da sensação de segurança. São duas polícias distintas, que não podem coabitar o mesmo organismo. A banda podre precisa ser esterilizada com atos exemplares. Deixada intocável, essa porção corrupta e violenta da corporação continuará solapando os esforços do poder público por um sistema de segurança eficaz, e reproduzindo episódios aviltantes como o de Juan.