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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

PRESÍDIO PM - PODER, FESTAS E FUGAS

BEP. Após fugas, Beltrame manda transferir cadeia de PMs - O GLOBO, 22/09/2011 às 23h47m; Sérgio Ramalho

RIO - A Polícia Militar informou que o Batalhão Especial Prisional (BEP), em Benfica, será transferido para um lugar mais seguro. Segundo a PM, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, ordenou ao comandante-geral da corporação, coronel Mário Sergio Duarte, que procurasse outro local. Fotos publicadas na quinta-feira pelo jornal "Extra" mostram uma festa na cadeia feita em setembro passado pelo ex-cabo da PM Carlos Ari Ribeiro , o Carlão, para comemorar o aniversário de um dos seus filhos. Suspeito de 16 assassinatos e de integrar uma milícia, Carlão fugiu do BEP no início deste mês. Há hoje no batalhão cerca 280 presos.

O coronel Mário Sérgio classificou como "absolutamente inconcebível" o fato de os presos, nas fotos, exibirem uma "estética de poder", ostentando "joias, cordões, pulseiras e anéis".

- Eu inclusive recomendei que os presos usem uniforme. São ordens que eu estou dando, para que sejam cumpridas imediatamente - disse ele.

PM vai abrir sindicância para apurar festa

A nova unidade, cujo local ainda não foi escolhido, vai ter equipamentos como câmeras e aparelhos de raios X, para monitorar presos e evitar fugas.

A Polícia Militar informou, segundo o site G1, que vai abrir uma sindicância para investigar a festa. Ainda de acordo com a polícia, todos os agentes que trabalhavam na unidade no horário em que a festa foi realizada serão convocados para prestar depoimento. O BEP já teve cinco trocas de comando desde que Mário Sérgio assumiu o cargo, em julho de 2009.

Um levantamento da Promotoria da Auditoria Militar revela que as fugas de quatro ex-PMs - entre eles, Carlão - presos no BEP aconteceram às vésperas de eles serem transferidos para presídios comuns. Para a promotora Isabella Pena Lucas, isso evidencia a prática de favorecimento na unidade destinada a policiais militares:
- Não estou falando de um caso isolado, mas de quatro fugas que aconteceram quando esses ex-PMs seriam transferidos para o sistema prisional - ressaltou Isabella.

A promotora da Auditoria Militar se refere às últimas quatro fugas ocorridas no BEP no período de 12 meses. Na mais recente, Carlão escapou, no último dia 2, da unidade horas após a Polícia Civil deflagrar a Operação Pandora, para cumprir 19 mandados de prisão contra integrantes de uma milícia de Campo Grande. Entre os nomes, figurava o de Carlão, que já havia sido excluído da PM e deveria ser transferido para Bangu 8.

Antes da transferência, entretanto, o ex-PM escapou de sua cela, no segundo pavimento do BEP. Na ocasião, o corregedor da PM, Ronaldo Menezes, disse que Carlão teria fugido pelo buraco do ar-condicionado na parede, mas não explicou como o aparelho foi colocado de volta após a saída do ex-cabo. Por ordem de Menezes, o oficial de dia na unidade foi detido e uma sindicância instaurada para apurar se houve facilitação na fuga.

Para a promotora, a versão inicial para a fuga de Carlão é inverossímil. Ela esteve no BEP e verificou que a cela do miliciano havia passado por uma reforma e contava com aparelho de ar-condicionado, televisão, videogame e frigobar. Antes de escapar, Carlão já havia sido alvo de uma varredura em sua "cela-suíte". Na ocasião, foram recolhidos no local um telefone celular e um notebook, que o ex-cabo usava para acessar a internet.

Seis meses antes de Carlão ter escapado do BEP, o ex-soldado da PM Franklin Delano Roosevelt Maia Júnior fugiu pela porta da frente da unidade. Também acusado de ser ligado a um grupo paramilitar, mas com atuação em Jacarepaguá, Maia teve o pedido de transferência para uma unidade da Secretaria de Administração Penitenciária confirmado pela Justiça. A transferência deveria acontecer na segunda-feira, dia 7 de março, mas o ex-PM se antecipou, fugindo na noite de sexta-feira.

No ano anterior, os ex-PMs Wellington Vaz de Oliveira e José Carlos da Silva - ambos integrantes da mesma milícia de Carlão, em Campo Grande - também deixaram o BEP pela porta da frente. A dupla escapou em 8 de setembro de 2010, também às vésperas de ser transferida. No caso deles, houve suspeita de que a fuga teria custado R$ 200 mil. Uma sindicância foi aberta na época, mas ninguém acabou identificado ou punido, situação semelhante à ocorrida no caso da fuga do ex-soldado Franklin Delano Maia. Procurado pelo GLOBO, o corregedor da PM, coronel Ronaldo Menezes, não se manifestou sobre o resultado das investigações.

Policiais deixavam cadeia até para cometer crimes

As denúncias envolvendo PMs e ex-PMs presos no BEP fazem parte da rotina na Auditoria de Justiça Militar. Os casos variam de facilitação de fuga, negligência e pagamento de propina por parte dos presos para garantir regalias. Em maio de 2009, O GLOBO revelou numa série de reportagens que alguns policiais deixavam a prisão para ameaçar e até mesmo assassinar pessoas. Entre os casos citados, figurava o do ex-PM Fabrício Fernandes Mirra, que circulava armado no interior da unidade prisional e afirmava pagar R$ 5 mil mensais a um dos diretores. Mirra também era ligado a uma milícia.