ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sábado, 17 de setembro de 2011

INVESTIGAÇÃO - MAIS ANTIGO, MAIS DIFÍCIL

"Quanto mais antigo, mais difícil”. Rosane de Oliveira Oliveira, delegada - zero hora 18/09/2011

Delegada do Caso Sanfelice, de 2004, a delegada Rosane de Oliveira Oliveira assumiu em outubro a missão de investigar 248 crimes ocorridos até 2007.

Zero Hora – Como a senhora recebeu a missão de investigar casos esquecidos, a maioria com poucas pistas?

Rosane de Oliveira Oliveira – É uma missão desafiante e gratificante. Quando se esclarece um caso que parecia sem solução, uma família tem uma resposta que esperava havia anos.

ZH – De onde parte a investigação passado tanto tempo do crime?

Rosane – Analisamos a vida da vítima, na busca de desafetos. Ouvimos pessoas próximas, família, amigos. Quando procuramos suspeitos, muitas vezes, descobrimos que já estão mortos, que foram vítimas de homicídio também, ou que estão presos por outros crimes cometidos depois daquele.

ZH – Qual é maior obstáculo?

Rosane – O tempo. A cena do crime é desfeita, as testemunhas esquecem informações importantes ou preferem nem mais falar. Muitas famílias, em que as vítimas foram mortas pelo tráfico, também não querem mais mexer no assunto, pois continuam morando nas mesmas vilas e temem represálias.

ZH – O índice de indiciamentos no Brasil em relação a esses casos anteriores a 2007 é de 16%. Há como aumentar o percentual?

Rosane – Acho difícil aumentar muito mais do que isso. Quanto mais antigo, mais difícil fica. Eu gostaria de elucidar todos os casos, trabalhamos há quase um ano nisso. Acho importante as famílias saberem que tentamos ao máximo.

O desafio dentro das delegacias gaúchas

Para os familiares das vítimas de casos esquecidos, a reabertura das investigações na Capital por uma equipe de policiais criada em outubro passado foi uma surpresa. Na maioria dos casos, a esperança, no entanto, pode acabar em frustração. Filho de um comerciante assassinado com dois tiros na Zona Norte em outubro de 2002, o microempresário Joel Arosi, 29 anos, diz ter ficado feliz em saber que o caso havia sido reaberto.

Apesar de o crime ainda estar sem solução (o inquérito foi concluído neste ano sem autoria, mas diligências continuam sendo feitas a pedido do Ministério Público), o filho do comerciante José Paulo Arosi, 44 anos, elogia o trabalho.

– É difícil remexer nesta história, mas tenho certeza de que se o trabalho que foi feito hoje, com essa dedicação toda que eu vi, tivesse sido feito na época da morte do pai, com tudo fresquinho, o caso seria esclarecido – desabafa Joel.

Se não chegaram aos culpados, os policiais conseguiram, ao menos, dissipar a imagem deixada na primeira apuração policial, em que se chegou a cogitar a hipótese de suicídio, mesmo o corpo do comerciante tendo sido encontrado com dois tiros, um no peito e outro na cabeça.

À frente das investigações deste e de outros 247 casos na Capital está a delegada Rosane de Oliveira Oliveira. Em uma espécie de minidelegacia improvisada com divisórias dentro da Delegacia Regional de Porto Alegre, no Palácio da Polícia, ela e a equipe tentam chegar aos autores de homicídios, consumados ou tentados, ocorridos até 2007. Apesar da dedicação exclusiva de quase um ano, a equipe chegou até o momento ao indiciamento de apenas 12% dos autores.

– Nenhum caso de homicídio ficará na gaveta das 24 delegacias da Capital. Todos serão revistos com calma por quem tem experiência nessas investigações – promete o delegado Cléber Ferreira.

Os policiais lidam com a escassez de provas. Em alguns crimes, o inquérito sobre a morte tem apenas uma folha, a da ocorrência em que o óbito foi registrado. Não raro, quando a vítima não morria no local, a perícia sequer foi à cena do crime. Em outros, no entanto, pistas importantes parecem ter sido guardadas por anos a espera de alguém que se interessasse. É o caso de um fio de cabelo coletado no carro do suspeito de matar um jovem no início dos anos 2000. O material foi encaminhado para exame de DNA. Dependendo do resultado, mais um caso pode ser esclarecido.