ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

POLÍCIA REPETE ERROS NA PRESIDENTE VARGAS

EDITORIAL O GLOBO, 11/08/2011 às 16h12m


Não é somente na semelhança entre as ações dos criminosos que o episódio de anteontem à noite, em que bandidos sequestraram um ônibus na Avenida Presidente Vargas tomando passageiros como reféns, remete ao caso em que um assaltante invadiu um coletivo da linha 174, no Jardim Botânico, há 11 anos. Naquela ocasião, morreram uma passageira, que ficara como refém sob a mira de uma arma, e o próprio sequestrador, asfixiado por policiais quando já estava dominado. Como no trágico desfecho de junho de 2000, também desta vez a polícia - para usar o eufemismo do comandante da PM - atropelou o protocolo e cometeu uma série de erros. Menos mal que, até o início da noite de ontem, não havia registro de passageiros mortos no Centro. Mas houve feridos, uma das vítimas em estado grave, e repetiram-se equívocos de abordagem imperdoáveis numa corporação que deve primar, antes de tudo, pela segurança daqueles a quem é chamada a proteger.

A maneira temerária como a polícia se portou no assalto de anteontem parece indicar uma peculiaridade na segurança pública fluminense. No atacado, a guerra contra a criminalidade tem produzido estimulantes resultados. Disso dá conta, por exemplo, o inegável sucesso do programa de UPPs, responsável pelo resgate para a cidadania de diversas comunidades até então subjugadas pelo crime organizado. Igualmente, a retomada do Complexo do Alemão, no fim do ano passado, e a opção por ações de inteligência e investigação precedendo operações de ocupação, em lugar de invasões com risco para a integridade dos moradores. Coincidentemente, na manhã seguinte ao sequestro no Centro, a polícia contabilizou nova vitória, com a prisão, em Manguinhos, de bandidos que haviam escapado do cerco ao Alemão.

No entanto, em ações pontuais em que devem prevalecer o discernimento, a capacidade de dar conta de situações imprevisíveis e o profissionalismo, essenciais no embate direto com a criminalidade nas ruas, a polícia do Rio tem dado mostras de despreparo. Sinal evidente de que falta treinamento adequado para os agentes públicos preservarem o protocolo em todas as intervenções de combate ao crime.

Tanto no sequestro da linha 174 quanto no assalto na Presidente Vargas a intervenção da polícia foi inaceitavelmente desastrosa, em fases diferentes das operações. No Jardim Botânico, houve erro na negociação, e um soldado do Bope quis resolver sozinho o impasse. Na tentativa de libertar a refém, alvejou o bandido e provocou a morte da passageira. No Centro, deu-se o equívoco na abordagem dos criminosos: evitou-se a fuga dos assaltantes com tiros de fuzil contra o ônibus, um risco à vida dos passageiros. Nos dois casos, os policiais apostaram no imponderável, ou seja, a possibilidade de uma ação dar certo ou não - temerária opção de resposta a um crime, condenável numa corporação supostamente treinada para proteger os cidadãos.

Faltou pouco para o Rio reviver uma tragédia que abalou a cidade e comoveu o mundo em 2000. Fica o alerta para as autoridades de segurança: assim como o estado começa a ter uma política estratégica de segurança, também é fundamental investir no adestramento dos policiais para desafios pontuais.