ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

PMS RADICALIZAM GREVE NO BRASIL


ESTRATÉGIA NACIONAL. PMs radicalizam protestos no país. Greve de PMs que leva pânico a Salvador (BA) é o novo capítulo de uma onda de radicalização policial que já atingiu o RS e deve chegar a outros Estados - CARLOS ETCHICHURY, ZERO HORA 06/02/2012

Mais de 80 assassinatos em seis dias, lojas saqueadas, ônibus atravessados em avenidas e Assembleia Legislativa invadida compõem o cenário em Salvador, provocado pela greve dos policiais militares da Bahia. Um dos mais intransigentes protestos de corporações policias de que se tem notícia no Brasil, a greve da PM baiana segue uma tendência de radicalização, cujo marco é a invasão do quartel general dos bombeiros do Rio, em 2011.

À frente dos grevistas, entrincheirado dentro da Assembleia Legislativa, está o ex-PM Marco Prisco, coordenador-geral da Associação de Policiais e Bombeiros e de Seus Familiares da Bahia. Ele foi expulso da corporação há 10 anos, durante uma greve. Pagos para garantir a ordem, os PMs, acompanhados de familiares, amotinaram-se em quartéis e invadiram a Assembleia Legislativa. Além disso, são suspeitos de sequestrar ônibus.

– Deve haver 3 mil pessoas aqui na Assembleia, com muitas famílias, mulheres, idosos. Montamos até um pula-pula para as crianças – disse Prisco a ZH.

Ele e outros 11 líderes tiveram mandado de prisão expedido pela Justiça, mas até ontem apenas um havia sido detido. Os mandados devem ser cumpridos pela Polícia Federal, conforme determinação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O socorro de Brasília inclui a mobilização do Exército e da Força Nacional de Segurança no patrulhamento de ruas e avenidas.

Surgidos após a redemocratização, as reivindicações de PMs, com seus piquetes desorganizados e lideranças desarticuladas, fazem parte do passado. Com a Copa do Mundo, em 2014, e as Olimpíadas do Rio, 2016, como barganhas, as entidades de classe entraram em sintonia, pressionando autoridades e espalhando pânico entre a população.

– Hoje, há algo bem diferente, que favorece os policiais militares: os sites de relacionamento, que permitem que a gente se organize, e a Copa do Mundo. Na sexta-feira, estavam em Salvador prestando solidariedade ao pessoal representantes de entidades das 12 cidades que serão sede – diz o gaúcho Leonel Lucas, presidente da Associação Nacional dos Policiais Militares e Bombeiros Militares do Brasil.

Salvador vive dias de convulsão

Terceira maior cidade do Brasil, Salvador vive dias de terror por conta da greve da PM. Abandonada à própria sorte nos últimos seis dias, a população viu os crimes se multiplicarem e trancou-se em casa.

A cidade ficou à mercê de bandidos. Saques e arrastões levaram comerciantes a cerrar as portas no meio da tarde, na última sexta-feira. Até os shopping centers anteciparam o fechamento. O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado emitiu recomendação para que os colégios só voltem às aulas após o fim do motim.

O caos só não é generalizado porque 3,5 mil homens das Forças Armadas patrulham ruas e avenidas. Quarenta policiais do Comando de Operações Táticas da Polícia Federal desembarcaram em Salvador para prender os líderes do movimento. As primeiras ações para a desocupação da Assembleia começaram no início da noite de ontem, quando as luzes foram desligadas e viaturas cercaram o prédio.

A tática dos grevistas de invadir prédios públicos e obstruir rodovias pode representar “um tiro no pé”. O alerta é do secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima:

– Faz parte do processo político subverter a ordem durante protestos. Mas a ordem está sendo subvertida justamente por quem tem a função de preservar o estado democrático de direito. Como uma instituição vai reprimir um bloqueio de rodovias, se ela mesmo queima pneus no asfalto? Como vai impedir que manifestantes invadam Assembleias, se ela mesma invade?

“Outros Estados vão parar”. Pedro Queiroz, Presidente da Anaspra

Representante de cerca de 700 mil policiais, o presidente da Associação Nacional de Praças, Policiais e Bombeiros Militares (Anaspra) defendeu os grevistas da Bahia em entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Como o senhor avalia o que está acontecendo na Bahia?

Pedro Queiroz – É um mal necessário. Os policiais dão suas vidas pela sociedade, mas o governo não dá estrutura para que trabalhem. Essas questões estão levando o país a desencadear movimentos paredistas, como ocorreu no Rio de Janeiro, no Pará, no Maranhão, no Ceará.

ZH – A impressão é que os protestos estão cada vez mais radicalizados.

Queiroz – Radicalismo eu vejo por parte do governo, que não tem tratado os agentes de segurança pública com respeito. A categoria apenas para, só isso.

ZH – Mas bombeiros invadiram quartel general no Rio, PMs colocaram fogo em pneus no Rio Grande do Sul, ocuparam a Assembleia na Bahia, aquartelaram-se em Pernambuco.

Queiroz – Não avalio como algo violento. As assembleias legislativas de qualquer Estado são casas do povo. E o policial militar é povo. O melhor local para se fazer atos públicos é na Assembleia.

ZH – Onde será a próxima greve?

Queiroz – O Rio tem assembleia nos próximos dias, e o indicativo é de parar, às vésperas do Carnaval. Não tem jeito. O governador não quer ceder.

ZH – Pode haver efeito cascata?

Queiroz – Já está havendo efeito cascata. As notícias de que outros Estados vão parar são iminentes.

ZH – O que mudou nas manifestações no passado para as de agora?

Queiroz – A estratégia. Em 1997, que foi um movimento trágico, não havia espaço para organização. As categorias começaram a se organizar em associações, a se integrar. Hoje, conhecemos os colegas. Ficou mais fácil apresentar uma pauta ao governo, ir para o movimento paredista.


A insurgência policial

JUNHO DE 2011 RIO DE JANEIRO - Dois mil bombeiros invadiram o quartel central da corporação, no centro do Rio. Após a desocupação, 439 foram presos, mas acabaram anistiados. Também fizeram protesto na Assembleia Legislativa (foto).

AGOSTO E SETEMBRO DE 2011 RIO GRANDE DO SUL - Foram realizados 70 protestos com queima de pneus em avenidas e rodovias (foto). O ato mais radical foi o uso de um boneco fardado, com ameaças a Tarso Genro. Foram instaurados 26 inquéritos. A Polícia Civil indiciou dois PMs por ameaça ao governador e por participação na queima de pneus.

JANEIRO DE 2012 CEARÁ - PMs começaram greve no dia 29 de dezembro. Durante os protestos, que foram até 4 de janeiro, acamparam em batalhão. Usaram viaturas para bloquear uma rua e esvaziaram os pneus de veículos (foto).

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Estas greves evidenciam o quanto está desmoralizada a Constituição da República Federativa do Brasil. Ninguém respeita a carta magna do Brasil. Vários dispositivos constitucionais não são cumpridos, aplicados ou executados pelos Poderes e órgãos estatais responsáveis. O resultado só pode ser a desordem, a anarquia e o caos. Se o Congresso vive emendando a constituição, o Judiciário aplica só que o interessa e o Poder Executivo despreza direitos fundamentais e sucateia serviços de saúde, educação e segurança, o que esperar de militares estaduais que arriscam a vida na prestação de segurança afrontarem a constituição, as normas militares e a servidão militar na busca de salários dignos e condições de trabalho negados pelos governantes? Num país onde as leis não são aplicadas, a discriminação é vergonhosa e os Poderes agem com desarmonia e negligencia, as portas ficam abertas para a rebeldia, para a bandidagem e para os justiceiros.