ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

terça-feira, 7 de junho de 2011

SUCESSÃO DE ERROS

Rio Acima - Marcelo Migliaccio - JORNAL DO BRASIL, 06/06/2011

Um erro não justifica outro.

Os bombeiros do Rio erraram ao levar mulheres, filhos e até avós para a invasão do Quartel Central da corporação na última sexta. Foi um ato irresponsável, como disse o governador Sérgio Cabral, que também errou.

Errou porque o Bope e o Batalhão de Choque não poderiam ter invadido o quartel tão apressadamente (e isso só se faz com ordem do governador).

Todo mundo sabe que a PM quando recebe uma ordem não quer saber de nada. Dada a ordem de invasão, não lhes interessa se há crianças e mulheres no caminho. A ordem era tirar os bombeiros grevistas de lá e ela foi cumprida rapidamente.

Quem assiste a um treinamento de policiais do choque ou do Bope sabe que a brutalidade e a insensibilidade são incentivadas ao extremo na tropa. Justamente para que não parem nem diante de mulheres e crianças. Parece que um policial é preparado para não pensar, não sentir, não analisar. Não só aqui, em qualquer lugar do mundo. São formados para não pensar, inclusive, que estão arriscando suas vidas para defender o poder constituído, uma casta de políticos ou a propriedade privada de quem vive da mais valia. Formados para não sentir pena de ninguém que esteja entre eles e a ordem que receberam. Formados para não analisar as situações, apenas fazer o que lhes mandaram.

Há mulheres e crianças num acampamento de sem terra? Elas que saiam do caminho enquanto é tempo, porque a tropa vai passar por cima.

Uma vez, vi uma reportagem que mostrava policiais japoneses fazendo arranjos florais. Na época, todo mundo aqui achou marqavilhoso que cultivassem também a delicadeza, mas nunca se fez nada do gênero no Brasil. Preferiram os treinos truculentos, na base do xingamento, do desrespeito. Não é assim que se prepara um servidor público. Ok, vão enfrentar bandidos sanguinários, mas 90% da população a que servem são honestos.

Uma mulher grávida perdeu o bebê e uma anciã teve um infarto no meio da confusão. Repito: a maior responsabilidade é dos bombeiros que levaram essas pessoas para aquele ato de insubordinação e desobediência.

Mas a PM poderia ter feito um cerco e esperado a saída das mulheres e crianças. Sem água e comida, a ocupação do quartel não resistiria, e os mais fracos seriam os primeiros a sair. Mas, não, invadiram e foi a pancadaria que se viu.

Bombeiros, assim como médicos, professores e policiais devem ser muito bem pagos. Suas reivindicações são justas. Ninguém trará de volta, no entanto, as pessoas que morreram, uma delas antes mesmo de nascer, por irresponsabilidade dos próprios grevistas e por falta de tato do governo do estado.

A PM tinha que ter negociado mais, conseguido inteligentemente a saída das famílias, e só depois partir para a solução final.

O movimento agora tem dois mártires, mas eu não gostaria de ser um mártir e você?