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terça-feira, 21 de junho de 2011

CÁRCERE - A BM AGIU CERTO AO NÃO INVADIR

Por que a BM agiu certo ao não invadir. Mortes em caso de cárcere privado em Guaíba mostram o risco de lidar com crimes passionais - Humberto Trezzi, colaborou André Mags - ZERO HORA 21/06/2011

A situação era conhecida e perigosa: um ex-marido vingativo, uma mulher acuada sob a mira de um arma. A BM seguiu os protocolos psicológicos e táticos recomendados, mas desta vez não deu certo.

Às 7h50min de ontem, quatro minutos depois de anunciar que se entregaria, o ex-presidiário Cleomar Antônio da Silva, 36 anos, disparou duas vezes contra Luciana Rodrigues de Souza, 28 anos, e atirou contra a própria cabeça, determinando o fracasso de uma negociação exaustiva. Ele mantinha a ex-mulher por 16 horas em cárcere privado, em Guaíba.

A negociação havia sido complicada. Acusado há 20 dias pela ex-cunhada de estuprar uma adolescente de 13 anos, Silva não queria ir para a prisão, com medo de sofrer represálias. Restava ao Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Brigada Militar prometer que ele não corria risco de ser morto e que poderia escolher o presídio para onde iria.

Derrotado pela primeira vez em cinco casos passionais de tomada de reféns, o major Francisco Lanes Vieira estava abatido ao deixar o ônibus de onde falava ao celular com Silva:

– Passional sempre é imprevisível.

Especialistas mostram que o major tem razão. No artigo “O Negociador nas Ocorrências com Reféns”, no qual compila dicas dos principais grupos de resgate do mundo, o especialista Carlos Alberto Portolan ressalta que o pior sequestrador é o que não exige dinheiro ou qualquer bem material.

– Existem vários tipos: o passional, o criminoso em fuga, o psicopata, o terrorista. O ladrão faz reféns para não ser preso, o terrorista também quer negociar algo, bem palpável. Já os passionais e os psicopatas são instáveis e, por isso, mais difíceis de lidar.

Portolan diz que a BM agiu certo ao tentar cansar o ex-marido, até porque ele chegou na casa com intenção de matar – a situação mais terrível para um negociador da BM.

Protocolos obedecidos e fim trágico

Assim que tiros foram disparados na casa de alvenaria na Rua Triunfo, no bairro Columbia City, os policiais do Gate levaram quatro segundos para entrar na residência onde Silva morava.

Arrombaram a porta da entrada e esbarraram em uma geladeira, usada como barricada para dificultar o avanço dos policiais. O subcomandante-geral da BM, coronel Altair de Freitas Cunha, disse que todos os protocolos foram seguidos.

– Não houve demora. Fizemos o mesmo que em fevereiro de 2010, em Canoas, quando levamos 72 horas e o ex-marido se entregou, sem que morresse ninguém. A tática é conversar, conversar. Não poderíamos invadir à noite. Fizemos certo, mas o final foi trágico – lamenta Altair.

Luciana havia denunciado Silva e podia pedir proteção

A balconista de minimercado Luciana Rodrigues de Souza, que na tarde de domingo voltou à casa onde viveu com Silva até maio, poderia ter sido acompanhada ao local por um policial militar. Ela foi à casa buscar roupas.

Imaginava que o ex-marido estaria no hospital, já que, dias antes, sofrera um acidente que mutilou-lhe um dos pés. O ex-presidiário estava na residência, localizada nos fundos da propriedade dos pais dele, ao lado do bar mantido pela família.

– Ela poderia ter solicitado proteção à Brigada Militar no momento de voltar à casa – afirmou o juiz Ricardo Zem, que cuidava do caso.

Luciana denunciou Silva por agressão no dia 29 de maio à DP de Guaíba e solicitou medidas de proteção. Em dois dias, o caso chegou à Justiça e, no dia 3 de junho, foi realizada a audiência com a determinação de que o ex-companheiro não poderia chegar perto dela ou procurá-la por telefone.

Conforme a BM, Silva tinha passagens na polícia por roubo, furto e porte ilegal de arma. Ele viveu uma década com Luciana e teve com ela uma filha de nove anos.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Acompanhei o caso. Os Oficiais da Brigada Militar agiram na gestão e nas negociações com cautela, paciência, técnica e protocolos previstos para este tipo de ocorrência, utilizando todos os recursos para obter a rendição do sequestrador. Infelizmente, não houve sucesso devido às circunstâncias pessoais e emocionais que determinaram a ação intempestiva do sequestrador. Neste caso todos ficaram abalados, inclusive os policiais envolvidos que viram todo o esforço reduzido à nada. É da profissão.

Entretanto, o Brasil precisa rever suas leis e estrutura para garantir maior proteção às pessoas que testemunham ilícitos, dão informações importantes às polícias e denunciam ameaças, mas não são atendidas, ficando a mercê de uma bandidagem que, neste último caso, age de forma passional e imprevista.