ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

terça-feira, 14 de junho de 2011

QUANDO NÃO SE TEM LÍDER, ESTÁ FORMADO O QUADRO PARA O MOTIM.


“Quando não se tem líder, está formado o quadro para o motim” - Rodrigo Pimentel, 40, estreia amanhã como comentarista de segurança pública do “Bom Dia Brasil”, da Globo. Nesta entrevista, ele comenta o motim dos bombeiros do Rio de Janeiro e as alternativas para conter a violência no Brasil. ANDRÉA JUSTE - colaborou Joelmir Tavares; Jornal O TEMPO

Entrevista com Rodrigo Pimentel – Ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) – Corroteirista do filme “Tropa de Elite”

O que significam os últimos acontecimentos envolvendo os bombeiros no Rio de Janeiro, em termos de segurança pública? A população está segura?
No caso dos bombeiros, o que falta é uma política salarial. O que aconteceu após o movimento, sim, afeta a segurança pública. Diante de políticos pouco habilidosos e da ausência de uma política salarial de segurança pública, tornamos-nos reféns desses episódios. Lembro que esse episódio no Rio não foi único: tivemos em Fortaleza em 1997 um evento parecido; em Minas Gerais, em 1998; em Tocantins em 1999. Em São Paulo, inclusive, a Polícia Civil cercou o Palácio Bandeirantes no ano passado. Enquanto os governantes não derem uma política salarial, um plano de carreira para as categorias, esse movimentos deverão se repetir no país.

Para invadir o quartel, os bombeiros tinham o direito de levar os familiares?
Eles não deveriam levar seus familiares. Mas vamos lembrar que esses bombeiros estavam desesperados em função de baixíssimos salários, ansiosos por um posicionamento do governo estadual, reclamando condições precárias de trabalho. Quando você não tem uma liderança efetiva, alguém que lhe dê satisfação, um líder sensível a essas demandas, está formado o quadro para uma rebelião, um motim. Os motins ocorrem em função dos líderes e não em função da base. Insensibilidade e intransigência provocam o motim. E foi isso o que aconteceu no Rio de Janeiro. No entanto, os bombeiros não deveriam expor seus familiares a essas reivindicações.

Como você avalia a ação do Bope?
O Bope é uma tropa profissional, leal ao comandante geral da Polícia Militar. É uma tropa legalista, que trabalha em favor da lei. A ordem deveria ser restabelecida, os bombeiros estavam na prática de um crime militar, e o Bope foi usado de forma profissional. Mas é evidente que, no coração de cada policial militar do Bope, havia uma solidariedade. Não com o crime praticado, mas com o pleito do profissional bombeiro.

A retomada do quartel poderia ter sido feita por meio de negociação?
Poderia ter sido feita e seria a alternativa tática mais viável e que implicaria menos riscos. Mas o governo do Estado optou por uma retomada do quartel. É verdade que os bombeiros estavam praticando um crime militar e deveriam ser presos. No entanto, em outras situações, a prática é outra. Um exemplo simples: quando há uma rebelião em um presídio brasileiro, normalmente os governos persistem muito mais na negociação do que na ocorrência com os bombeiros. A polícia demora dias para optar pela invasão. No caso da rebelião no quartel dos bombeiros no Rio, a opção pela invasão foi quase imediata.

De que forma devem ser organizadas as manifestações de insatisfação trabalhista, como no caso dos bombeiros do Rio?
Normatizando o direito à greve, que é um direito sagrado a todo trabalhador do mundo. Autorizando o estabelecimento de sindicatos e buscando lideranças legítimas para a negociação, como qualquer sindicato de trabalhadores. Os bombeiros de Paris, por exemplo, já fizeram greve por vários anos seguidos. Os de Nova York também. Vários Corpos de Bombeiros pelo mundo afora já fizeram manifestações por melhores salários. O que ocorre no Rio de Janeiro é que os bombeiros são uma instituição militar, e o militar, no Brasil, pela Constituição, não tem direito à greve.

Qual a sua avaliação sobre a atual cobertura da mídia em acontecimentos relativos à segurança? Ajuda ou atrapalha?
Os veículos de comunicação esclarecem. Nem ajudam tampouco atrapalham. A cobertura jornalística, feita de forma responsável, traz a transparência para a operação policial. E uma operação policial com transparência é o que a sociedade quer. É a polícia que cumpre as leis, a polícia que trabalha de forma correta.

De que forma você, no papel de comentarista de segurança pública na emissora de TV de maior audiência do país, procura abordar os assuntos sem alarmar a população? É possível fazer uma cobertura educativa, com uma função social?
Sim, é possível. É o que eu mais tento fazer. Analisando o crime – que é um fenômeno social, um dos mais repetitivos e previsíveis por sinal – de uma forma clara, tranquila e sem emoção, você pode, inclusive, derrubar certos mitos. Há pouco tempo, o Complexo do Alemão foi ocupado por forças do Exército Brasileiro. O complexo tem 400 mil pessoas. Alguns moradores e alguns setores da mídia diziam que o tráfico e os homicídios tinham voltado e que o local estava muito perigoso. Quando se analisa com a razão, você descobre que, em seis meses, apenas dois homicídios foram praticados no local. Um passional e o outro motivado por uma briga de bar. Colocado em perspectiva, chega-se a conclusão de que o Alemão hoje é mais seguro que quase todas as cidades brasileiras. É dessa forma que temos que dar a notícia, analisando a verdade do número e, a partir dessa verdade, vamos desconstruindo os mitos e até os medos.

Após a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), no Alemão, por exemplo, é possível dizer que essas comunidades estão mais seguras? E a cidade do Rio de Janeiro como um todo?
Sim. Um excelente exemplo é a Cidade de Deus, bairro do Rio de Janeiro que era considerado favela, porque não tinha segurança pública. O lugar tem 65 mil habitantes e foi consagrado pelo filme “Cidade de Deus”. A UPP foi estabelecida há dois anos e, nesse período, nenhum jovem morreu nessa comunidade. É evidente: em uma comunidade, onde entre oito e dez jovens eram assassinados por mês, ninguém morreu desde a implantação da UPP. A UPP funciona no microcosmos da favela ocupada e também no macrocosmos da cidade. A soma de todas as vidas preservadas nas favelas faz com que caia a violência na cidade.

Nos filmes “Tropa de Elite” 1 e 2, foram abordadas a corrupção na polícia e a ação das milícias. Os longas-metragens retrataram com fidelidade esses dois problemas?
Você percebeu algum movimento das autoridades no sentido de combatê-los? Até o ano de 2002, apenas quatro milicianos haviam sido presos no Rio de Janeiro. Nos últimos quatro anos, pelo menos 600 milicianos foram presos no Estado. Eu tenho certeza de que a abordagem desse tema no filme trouxe à tona para a sociedade carioca e para as autoridades o perigo que as milícias representam. Eu percebo uma disposição maior para enfrentar as milícias. Mas a realidade do Rio de Janeiro lamentavelmente supera a ficção. A polícia é muito mais corrupta do que foi retratado nos filmes. Nós tivemos vários chefes de polícia, delegados e coronéis da polícia que foram presos. E também testemunhamos um fenômeno quase inédito no Brasil: deputados e vereadores sendo presos no Rio. Aí você verifica que o crime organizado tem um elo com a política local.

Em Belo Horizonte, têm acontecido ações criminosas, como ônibus queimados a mando de presos. Esses fatos podem ser considerados inspirados nas ações dos criminosos no Rio? As organizações criminosas do Rio estariam “fazendo escola”?
Todo evento criminoso midiático gera repercussão, provoca um efeito de demonstração. É possível que bandidos do Rio tenham copiado a questão de queimar ônibus dos bandidos de São Paulo. E os bandidos de Belo Horizonte tenham copiado do Rio. Pode ter acontecido em conseqüência da velocidade das informações. Isso faz parte do nosso cotidiano e da realidade que vivemos.

Como devem ser as políticas públicas de combate à violência? O empenho no combate ao tráfico é o caminho mais eficaz? Por quê?
O tráfico de drogas no Brasil provoca cerca de 70% dos homicídios do país. Temos mais ou menos 95 homicídios por dia no Brasil. Dez são passionais, de mulheres assassinados por maridos, noivos e/ou maridos; outros são provocados por latrocínio (bandidos que matam suas vítimas); e o restante – em torno de 70 homicídios por dia – são provocados, patrocinados por traficantes que disputam território. Combater o tráfico de drogas, de fato, reduz o número de homicídios. Mas precisa ser um combate em escala, metódico. Ações pontuais, de retirada de cocaína ou maconha, não surtem nenhum efeito. Se a política for em larga escala, onde se contemplem a prisão de assassinos e a retirada das armas, teremos algum efeito a curto prazo.

Quais políticas públicas ainda devem ser implantadas para garantir a segurança no Brasil?
Há anos, imaginávamos que a geração de emprego e a distribuição de renda ajudariam a diminuir a violência. Um grande equivoco. Estamos no melhor momento do Brasil na inclusão social e a violência só aumenta a cada dia. Pode ser uma consequência do crack, que já é consumido por um milhão de brasileiros, e pelas disputas territoriais provocadas pelos traficantes. Para uma política pública eficaz, devemos resolver a seguinte questão: quem mais mata e mais morre nesta guerra? São os jovens! Jovens que ingressam no crime a partir dos 14 anos de idade. A boa política pública seria de fato a escola integral, que afastasse esse jovem dos bares, das esquinas, dos becos, onde se consome e onde se vende essa cocaína. O tráfico de drogas é o único crime que tem capacidade de absorver os jovens (roubo de banco não tem, roubo de carga tampouco). Retirar os jovens das ruas com políticas culturais, esportivas e educacionais seria uma solução muito inteligente, muito barata. Muito mais eficaz que construção de presídios ou concurso de policiais.