ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

OPERAÇÃO DESASTRE: DUAS REGRAS BÁSICAS QUEBRADAS


Participaram desta cobertura Carlos Wagner, Eduardo Torres, Francisco Amorim, Humberto Trezzi e Pedro Moreira - ZERO HORA 22/12/2011

É para evitar mal-entendidos que podem resultar em tragédias como a de Gravataí que agentes de todo o Brasil têm uma regra: avisar os policiais de outros Estados, quando a investigação acontece na região deles. Isso não foi feito ontem e acabou na morte do sargento Ariel da Silva. Para completar a tragédia, partiu dos policiais gaúchos a quebra de uma segunda regra em casos de sequestros: não atirar contra os sequestradores, se esse ato representar algum risco aos reféns.

Comunicar os colegas de investigações nas suas áreas de atuação é procedimento ensinado em todas as academias de polícia. Mesmo quando isso implica probabilidade de vazamento da informação, ensina o delegado Renato Hendges, que há 27 anos atua na equipe antissequestro da Polícia Civil de Santa Catarina.

– Avisamos no mínimo a Chefia da Polícia do Estado onde vamos atuar. Quando já nos conhecemos e existe algum grau de confiança, nos reunimos com representantes de todas as polícias locais, montamos um QG, pedimos que a PM faça cerco. Colaboração total – afirma Hendges, que atuou em mais de 40 sequestros.

O delegado ressalta que não conhece o caso específico de Gravataí, mas acredita que possa ter ocorrido duplo erro: dos policiais civis, ao não informarem a presença. E do PM, ao abordar três desconhecidos sozinho.

O coronel Altair Cunha, subcomandante da Brigada Militar e experiente em casos com reféns, resume com uma frase sua opinião sobre a ação dos policiais civis paranaenses:

– Eles atuaram de forma clandestina e temerária num Estado sem avisar as autoridades competentes.

O delegado Cleber Ferreira, que tem mais de 30 anos na Polícia Civil gaúcha e lecionou Técnica de Investigação na Academia, diz que a ação dos colegas paranaenses é chamada, na gíria, de “pirataria”:

– A primeira coisa que deveriam fazer era avisar a polícia local. Até porque, em caso de prisão, eles têm de apresentar os presos aqui.

Expert em negociar a libertação de reféns, com 22 casos resolvidos, o coronel da BM Rodolfo Pacheco é enfático:

– A primeira preocupação tem de ser com a vítima. Saber onde está o refém, antes de atirar.

Sargento dedicou 21 anos à BM

Nascido em Porto Alegre, Ariel da Silva dedicou 21 dos seus 40 anos à BM e ao 17º BPM de Gravataí.

– Era tranquilo. Mesmo como policial, ele era um apaziguador. Por isso a gente não ficava com medo de algum tiro ou confronto – conta a cunhada, Sônia Aires, 27 anos.

Nas folgas, o pai de uma adolescente de 16 anos e marido de Adriana era dedicado à família. Nos últimos dois anos, quando foi promovido a sargento, Ariel passou a atuar no serviço de inteligência e já planejava a aposentadoria. O enterro será hoje no Memorial da Colina, em Cachoeirinha.

Refém era natural de Novo Hamburgo

Nascido em Novo Hamburgo, Lírio Persch foi com a família para o Paraná ainda criança, com pouco mais de um ano. Casado, o agricultor não tinha filhos. Definido pelo irmão mais velho, Sérgio Persch, como uma pessoa tranquila, Lírio era proprietário de uma faixa de terra em Quatro Pontes (PR) e no Paraguai, onde plantava soja, milho e trigo. Também era dono de poucas cabeças de gado. Segundo Sérgio, o irmão acompanhou o amigo Osmar na viagem em que comprariam uma máquina agrícola oferecida por um bom preço em um site.

– Entraram em uma emboscada. Vão ter de pagar por isso – lamenta.

A vítima tinha parentes no Estado, que ontem à noite tentavam obter informações sobre a desastrada ação policial.

ENTREVISTA. “Eles iriam nos libertar”. Osmar José Finkler, refém libertado

Resgatado na desastrada ação policial, o proprietário de uma empresa de transportes e fazendeiro paranaense Osmar Finkler, 36 anos, falou com ZH por telefone à noite:

ZH – Como foi o encontro com os supostos vendedores?

Osmar Finkler – Foi no posto. Logo ele (um dos criminosos) se apresentou como policial, nos rendeu e nos levou embora.

ZH – Vocês foram agredidos?

Finkler – Só nos amarraram.

ZH – Vocês estavam sendo libertados quando ocorreu a ação da polícia?

Finkler – Sim. Já tinham deixado em algum lugar a caminhonete tomada de nós. Já tinham me dado a chave e a documentação dela.

ZH – Como foi a ação policial?

Finkler – Estávamos dentro do carro, já com o resgate pago, e eles iriam nos libertar. Quando abriu o portão, o cara deu ré e um dos caras ali disse “volta que tem viatura”. Quando o carro voltou, foi aí que deu o pipoco (tiroteio).

ZH – O que aconteceu, então?

Finkler – Foi aí que a polícia atirou. Eu escutei a polícia atirando. Foi aí que acertaram o meu amigo Lírio.

ZH – Os sequestradores atiraram?

Finkler – Não ouvi. Nós estávamos de olhos vendados. Eu não vi ninguém atirando, só ouvi que os tiros vinham de trás. Mas os bandidos estavam armados.