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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

CORONEL PM DIZ QUE É INOCENTE E COBRA PROVAS DA PC-RJ

Solto, coronel diz que é inocente e cobra provas da Polícia Civil. Desembargador que soltou Beltrami disse que ‘estão brincando de investigar’ - Flávia Milhorance, Herculano Barreto Filho, Sérgio Ramalho e Ana Claudia Costa - O GLOBO, 21/12/11 - 21h03

RIO - Horas depois de ser solto por determinação do Tribunal de Justiça do Rio, o coronel Djalma Beltrami, comandante do 7º BPM (São Gonçalo), disse que nunca recebeu propina e cobrou que a Polícia Civil apresente as provas de seu envolvimento com o tráfico de drogas. O coronel disse que seu patrimônio é compatível com seu salário, que mora de aluguel na Baixada Fluminense e que ele e sua mulher têm apenas dois carros.

- Eu nunca recebi propina na minha vida. Eu nunca participaria de nenhum esquema dessa natureza (...) Eu nunca mandei ninguém falar por mim e nem nunca iria mandar alguém falar por mim. Eu não tenho essa informação. O meu trabalho sempre foi especificamente a nível operacional. Se chegar ou se tivesse chegado uma informação específica dessa natureza, todos os procedimentos seriam tomados (...) Eu não tenho nada a esconder. Estou muito convicto disso. Por isso, eu consigo botar a minha cabeça no travesseiro e dormir tranquilo - disse o coronel em entrevista ao ‘RJTV’.

Preso na segunda-feira pela Polícia Civil sob a acusação de receber propina do tráfico do Morro da Coruja, em São Gonçalo, Beltrami foi solto por volta das 3h desta quarta-feira com base em habeas corpus concedido pelo desembargador Paulo Rangel, do plantão judiciário do Tribunal de Justiça. Na decisão, o magistrado escreveu que "estão brincando de investigar" e criticou o trabalho da Delegacia de Homicídios (DH) de Niterói, responsável pela prisão do oficial. O juiz também determinou que o nome de Beltrami seja retirado da investigação até que novos elementos apareçam.

Rangel afirmou que o juiz da 2ª Vara Criminal de São Pedro da Aldeia, que expediu o mandado de prisão contra Beltrami, deixou-se levar "pela maldade da autoridade policial, que entendeu que ‘zero um’ só pode ser o comandante do 7º batalhão". A expressão "zero um" é usada numa conversa gravada entre um PM e um traficante e, segundo a investigação da Polícia Civil, seria uma referência a Beltrami. Ainda em sua decisão, o desembargador diz: "A versão da autoridade policial colocou, até então, um inocente na cadeia". O magistrado completa: "Investigação policial não é brinquedo de polícia".

Quando recebeu a notícia de que o habeas corpus havia sido concedido, Beltrami estava preso em uma sala do quartel general da corporação, no Centro, e chorou. O habeas corpus foi impetrado pela defensora Cláudia Valéria Taranto. Sua prisão, temporária, poderia durar um mês.

Beltrami vive com a família num prédio de classe média , numa rua simples em São João de Meriti. Os moradores do edifício evitaram comentar a prisão do vizinho. O comandante-geral da PM, coronel Erir da Costa Filho, disse que não vai se pronunciar sobre a decisão do desembargador Paulo Rangel, que concedeu o habeas corpus. De acordo com o relações públicas da PM, a corporação aguarda o envio do inquérito, com escutas telefônicas que acusam Beltrami de receber propina do tráfico. O pedido da documentação foi feito por meio de ofício ao delegado Alan Luxardo, titular da Divisão de Homicídios de Niterói. Ele está à frente das investigações.

Antes da decisão do TJ, a Associação de Oficiais Militares Estaduais do Rio (AME-Rio) defendeu Beltrami. A entidade repudiou a ação do titular da DH, delegado Alan Luxardo, responsável pela Operação Dezembro Negro, na qual o oficial foi preso.

Presidente da associação, o coronel Fernando Belo questionou a principal prova apresentada pela polícia para prender o oficial: a escuta telefônica em que há referência ao "zero um":

— Não há prova alguma que possa colocar Beltrami na situação em que está. Esta é uma prisão criminosa.

Os coronéis Belo e Ubiratan Ângelo, ex-comandante-geral da PM, visitaram Beltrami pela manhã no QG da PM. Ubiratan também criticou a prisão:

— O sigilo da investigação já foi quebrado, ele (Beltrami) foi exposto, então que se apresentem todas as provas.

O corregedor da PM, Waldyr Soares Filho, foi ontem à DH de Niterói para pedir formalmente as cópias do inquérito:

— Não tive acesso ao inquérito. O delegado prometeu que, em breve, enviará o inquérito à corregedoria. Só não disse quando. Só sei das informações pela imprensa.

Os coronéis Belo e Ângelo mostraram um documento do Disque-Denúncia, do dia 6 deste mês, segundo o qual traficantes do Morro da Coruja planejariam assassinar o coronel Beltrami.

Procurados ontem pelo GLOBO, a Secretaria de Segurança, o comando da Polícia Militar e a Chefia da Polícia Civil não quiseram se pronunciar sobre o assunto. Veja a íntegra da decisão do Tribunal de Justiça.

Delegado afirma que há outras evidências

O delegado Alan Luxardo lembrou que a investigação durou sete meses e disse que o inquérito ainda está em fase de conclusão — o que deverá ocorrer em até 20 dias.

— O que foi divulgado é apenas uma parte das investigações, há outras evidências do envolvimento dele (coronel Beltrami). Nos próximos dias, isso virá a público — afirmou o delegado, que ainda criticou a postura dos coronéis. — Não estou fazendo isso sozinho, há promotores e juízes envolvidos nesse caso. Quem não tem conhecimento de toda a investigação não tem como palpitar.

Segundo o Ministério Público, que participou da operação, a investigação da DH de Niterói não se resume ao conteúdo das escutas telefônicas divulgado. Policiais teriam filmado o encontro de um PM ligado ao comandante Beltrami com um dos chefes do tráfico em São Gonçalo. O encontro teria acontecido após a gravação da conversa (divulgada anteontem) entre um PM e um traficante, na qual o bandido diz estar disposto a pagar R$ 10 mil para o "zero um". Esse PM, segundo o Ministério Público, foi transferido para o 7º BPM a pedido de Beltrami, que já o levara para dois outros batalhões. Durante a investigação, foram feitas ainda outras escutas telefônicas.