ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

ENTRE O RIDÍCULO E O TRÁGICO


WANDERLEY SOARES, O SUL
Porto Alegre, Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011.


A incompetência, o despreparo, a síndrome de super-herói são fenômenos contidos nas ações de policiais parananeses e gaúchos que resultaram em duas mortes em menos de 12 horas na Grande Porto Alegre. Ainda sob espanto, apenas divago sobre o tema.

"Havia os senhores que guerreavam entre si; havia o rei que fazia guerra ao cardeal; havia o espanhol que fazia guerra ao rei. Depois, além dessas guerras surdas ou públicas, secretas ou patentes, havia ainda os ladrões, os mendigos, os huguenotes, os lobos e os lacaios que faziam guerra a todo mundo." Trato aqui de Alexandre Dumas, pai, em Os Três Mosqueteiros, ao descrever Paris de 1625. Claro que isso tudo era consequência de diferenças econômicas, sociais, raciais, religiosas. De lá para cá houve alguns avanços de comportamento entre os terráqueos, mas nem tanto. Ao mudar alguma coisa na terminologia, substituindo-se alguns personagens, é possível entender que essas guerras na Paris de 1625 fazem parte do curso da história em nosso País, em nosso Rio Grande de 2011. E um dos sintomas mais fortes desta moléstia atávica é esse enfrentamento destemperado entre policiais, alguns fardados, alguns paisanos. Sigam-me

Duelo

Tais modernas e bárbaras liças, resultado de um despreparo e de uma rivalidade que se não fosse tragicamente ridícula poderia ser considerada cômica, acorda em mim, alojado e atemorizado no alto da minha torre, as aventuras dos mosqueteiros do rei contra os guardas do cardeal. E quem não leu Dumas, pai, pelo menos deve ter assistido alguns desenhos animados em que D'Artagnan aparece como o super-herói. A cada duelo entre os dois grupos, o rei e o cardeal fingiam uma sindicância que, se valia para casos isolados, nunca tinha a pretensão de tornar menos viva a intolerância ou menor o ódio entre os mosqueteiros e os guardas que, afinal, escudavam os poderes da majestade, o rei, e do preposto de Deus, o cardeal.

Escudeiros

Entre a história e a ficção, os episódios de lutas entre as criaturas inteligentes vão se desenvolvendo e se repetindo através dos séculos passando sobre os cadáveres dos vencidos. Naturalmente que, na França, a partir de 1625, as coisas mudaram bastante. Mas no planeta, inclusive aqui na nossa província, em nossas ruas, estão vivos os fantasmas de D'Artagnan e de seus manos mosqueteiros. Não estão em ação os mosquetes do rei nem a cavalaria do cardeal no congestionamento das avenidas. Agora são carros, motos, pistolas, coletes balísticos e coisas outras a serem acionadas. É possível que isso signifique uma fase da infância de uma civilização, mas, sem querer que alguém mude e queime etapas no curso da história, algumas leituras poderiam, pelo menos, evitar essa guerra entre o cardeal e o rei. E, afinal, se os escudeiros da sociedade lutam entre si, nunca poderão criticar nem evitar que os lobos, os ladrões e os miseráveis lutem contra todo mundo.