ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

CONFIANÇA ABALADA


Confiança abalada. A fragilidade em identificar autores de delitos graves aumenta a sensação de impunidade e reduz a confiança da população na Polícia Civil. ZERO HORA, 23/04/2012


Para o psiquiatra forense Rogério Cardoso, a precariedade da apuração policial sugere aos criminosos a ideia de que “o crime compensa” e de que ele não será importunado.

– É o chamado “não dá nada”, tão usado pelos criminosos que possuem uma carreira delitiva, ou seja, não são criminosos eventuais – avalia o médico.

Na outra ponta, a falta de investigação pode estar afastando as vítimas das delegacias. A suspeita de que o caso não será apurado e de que o bandido permanecerá impune desestimula registros de ocorrências – colaborando para o que especialistas definem como taxa obscura, que é a distância existente entre os crimes ocorridos e as ocorrências efetivamente registradas nas DPs.

Pós-doutor em criminologia e professor dos programas de Pós-Graduação em Ciências Criminais e em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Rodrigo de Azevedo acredita que as constatações do Ministério Público indicam que a polícia “não está voltada para investigação”.

– As delegacias no Brasil têm uma lógica cartorária e bacharelesca. A exceção são as delegacias especializadas, que atuam em crimes de maior repercussão, como homicídio, roubos a bancos, ou quando têm vítimas importantes – pondera o pesquisador da PUCRS.

O que diz a polícia

INVESTIGAÇÃO

O que diz o diretor da Divisão de Planejamento da Chefia da Polícia Civil (Diplanco), Antonio Carlos Pacheco Padilha: “Não tenho conhecimento do relatório e não posso falar sobre questões específicas. A regra da polícia é investigar. Se há viabilidade para investigar, será investigado. Agora, se me perguntarem: é possível investigar tudo? É evidente que não. Nós temos uma média de 1,5 milhão de ocorrências por ano no Estado.

Cleber Ferreira, diretor da Delegacia Regional de Polícia de Porto Alegre - “Nós trabalhamos com prioridades. Fatos que traumatizam a população nos mobilizam mais. O volume de policiais é infinitamente menor do que a gente necessita, mas a gente acaba se preocupando. Agora, não é verdade que se investigue apenas crimes com repercussão ou pautados pela mídia. Talvez isto ocorra no Ministério Público. Na polícia, não”.

ARMAS - Cleber Ferreira, diretor da Delegacia Regional de Polícia de Porto Alegre - “O problema das armas nas delegacias existiu, não douramos a pílula, mas foi resolvido. Deve ter no máximo 150 armas nas delegacias. Todas cadastradas. As armas vão para a Justiça, para a perícia ou para o Exército. Esta é a atual realidade. Não há mais, também, armas em baús e armários”.

ESTRATÉGIA - O que diz o diretor da Diplanco, Antonio Carlos Pacheco Padilha: “No ano passado, procuramos estabelecer, em todos os departamentos e em todas as delegacias, o foco na investigação criminal, buscando sempre combater a criminalidade organizada. Em 2011, a polícia cumpriu, em média, 44 mandados de busca e apreensão por dia, incluindo finais de semana. Foram lavrados também 73 autos de prisão em flagrante por dia e realizadas mais de cem grandes operações”.

GESTÃO - O que diz o diretor Diplanco, Antonio Carlos Pacheco Padilha: “Em setembro do ano passado, contratamos uma consultoria, por meio da Secretaria da Fazenda e do Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade, para redimensionar o efetivo da Polícia Civil. Faremos a realocação de policias de acordo com a complexidade de elucidação e gravidade dos fatos, em todo o Estado”.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Como pedir eficiência para uma polícia investigativa que ainda trabalha com o arcaico e acessório inquérito policial e ao longo do tempo vem foi sucateada no potencial humano e desmembrada do segmento pericial, essencial para a apuração de delitos?