ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sexta-feira, 9 de março de 2012

SEGURANÇA EFÊMERA


PROTESTOS PALIATIVOS. Encurralados pela violência, moradores fazem apelos públicos em busca de segurança, mas logo acabam esquecidos pelas autoridades. Além de grades, alarmes e câmeras de vigilância, a violência vem acrescentando “um item de segurança” à entrada de casas e prédios da Capital: faixas com pedidos de socorro por escrito. JOSÉ LUÍS COSTA, ZERO HORA 09/03/2012


As manifestações se reproduzem há mais de uma década, sensibilizam as autoridades e fazem ações serem adotadas de imediato, mas as medidas têm vida curta. Passado um determinado período, o assunto deixa de ser prioridade e a situação volta ao que era antes, ensejando novos protestos como o mais recente deles, na Rua Portugal.

Mas, afinal, resolve ou não apelar para esse tipo de expediente? Para quem estuda as relações sociais entre comunidades e o poder público, como o sociólogo Juan Mario Fandino Mariño, a resposta é sim e, ao mesmo tempo, não.

– Faço uma analogia com o corpo humano. É bom ter febre? Não. Mas ela serve para indicar que há um problema que o corpo não pode resolver sozinho. O protesto é a maneira mais eficiente das comunidades pedirem ajuda. Elas não têm mais o que fazer pela falta de uma ligação estreita com as polícias e com a Justiça. Se colocar faixas resolve o problema por pouco tempo, pior seria sem elas – analisa o professor.

Exemplo disso é o que acontece na Rua Portugal, uma via de 1,4 mil metros entre os bairros São João e Higienópolis, castigada pela ação de bandidos por ter acesso fácil a vias de grande fluxo e rotas de fugas da Capital como a Avenida Assis Brasil.

A saga da Portugal se deve, em grande parte, aos ladrões de carro. Até outubro, a média de veículos levados por criminosos chegava a sete por mês. Naquela época, o roubo de um EcoSport ganhou destaque nacional (leia ao lado). Dias depois, um morador escapou de ser morto a tiros ao fugir dando marcha a ré por uma quadra.

Alarmada, a comunidade criou o Conselho de Segurança da Rua Portugal. Foram estendidas 30 faixas de protestos – bancadas por um morador dono de gráfica – diante de moradias. Organizou-se uma passeata. O movimento provocou reações. O 11º Batalhão de Polícia Militar se reuniu com moradores e reforçou o policiamento. Números de telefones direto com o quartel mais próximo foram deixados com moradores e comerciantes, e os índices de assaltos despencaram. Parte das faixas por segurança foram recolhidas, mas tiveram de ser penduradas novamente. Ontem, eram 16.

– A gente até já conhecia os PMs. Sempre estavam por aqui. Mas, a partir de dezembro, não se viu mais policiamento, e os assaltantes voltaram – lamenta Rodrigo Noll, 23 anos, dono de agência de viagens.

Em meados de janeiro, uma mulher foi rendida por um criminoso armado com uma faca no portão de um prédio e acabou violentada. Às 18h de sexta-feira, dois bandidos armados limparam o caixa de uma mercearia e levaram celular e pertences.

– Houve descaso da BM. Ligamos na hora para os dois números dos batalhões que nos passaram e falaram que já estavam indo. Às 21h, telefonamos novamente, mas para o 190, e disseram que nem estava registrado nosso pedido de ajuda – reclama a comerciante Milla Meleu.

Ontem, integrantes do Conselho de Segurança se reuniram para projetar novas manifestações.

– Mesmo que os PMs tenham parado de passar, o que não pode é a gente parar de reivindicar – afirma o comerciante Paulo Cunha, 59 anos, que contabiliza quatro assaltos sofridos por familiares e pendurou na frente de casa uma cartaz contendo uma cruz e a frase “Aqui jaz segurança”.

– Infelizmente, essas coisas só funcionam sob pressão – acrescenta o aposentado Mário Antônio Mota Paim, 61 anos.

“Não temos como colocar um PM em cada esquina”

Segundo o Comando de Policiamento da Capital (CPC), o patrulhamento das ruas de Porto Alegre e das demais cidades gaúchas obedece a um planejamento com base nos índices de violência, sem jamais deixar regiões totalmente desprotegidas.

– A Brigada Militar não age por impulsividade. Age por necessidade. Fizemos análise de tendências e com base nelas focamos nossas atenções. Não temos como colocar um PM em cada esquina – afirma o tenente-coronel Paulo Stocker, comandante do CPC.

O oficial diz que, quando ocorrem protestos por mais segurança, seja com faixas ou passeatas, são avaliados os indicadores da região para empregar mais PMs.

– Analisamos a situação e, se necessário, acrescentamos reforços. Os criminosos são presos ou migram para outro bairro onde o policiamento está normal. Aí, nós temos de transferir o reforço para onde foram os criminosos – garante o comandante do CPC.

Stocker assegura que, com raríssimas exceções, as manifestações de comunidades por falta de policiamento se confirmam.

– Geralmente, as pessoas não enxergam o PM e isso causa inquietação. Mas, se não estão vendo o policiamento, é porque o bairro está bem – afirma.

Quanto ao fato de vítimas de assalto ligarem para o quartel mais próximo e não serem atendidas, Stocker diz que isso ocorre porque as vítimas se confundem.

– O telefone do batalhão ou do gestor do policiamento da área é fornecido para lideranças comunitárias informarem problemas que precisam ser solucionados no futuro ou para avisar sobre eventos que precisam de apoio da Brigada Militar. Em caso de emergência, tem de ligar para o telefone 190, que tem atendentes em contato com as viaturas nas ruas.




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