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domingo, 13 de novembro de 2011

A ESTRANHA ATUAÇÃO DE UM POLICIAL NA FAVELA DA ROCINHA

De testemunha de acusação, inspetor da polícia vira segurança da quadrilha de traficantes - ELENILCE BOTTARI, O GLOBO, 12/11/11 - 19h35

RIO -Em apenas seis meses, o inspetor de polícia Carlos Daniel Ferreira Dias deixou o papel de testemunha de acusação do processo da 33 Vara Criminal do Rio — que condenou o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes a oito anos e quatro meses de prisão por crime de associação para o tráfico — para assumir a posição de segurança da quadrilha. Preso na última quarta-feira, flagrado por policiais federais quando escoltava a fuga de cinco traficantes da Rocinha, o inspetor foi durante cinco anos o principal responsável pelo único dos 20 inquéritos que levou Nem à sua primeira — e até agora única — condenação na Justiça.

Com nove anos de polícia, há pelo menos sete Carlos Daniel investigava os passos da facção da Rocinha desde o tempo do traficante Luciano Barbosa dos Santos, o Lulu, morto em abril de 2004 por policiais do Bope. Mas foi em 25 de dezembro de 2005, que o policial flagrou Nem numa interceptação telefônica do traficante Gilson Ramos da Silva, conhecido como Aritana, chefe da facção criminosa que também controlava a venda de drogas no complexo de São Carlos. Na época, Daniel investigava o envolvimento de menores com traficantes da Rocinha e do São Carlos, num processo que tramitava em segredo de Justiça na 2 Vara da Infância e Juventude.

"A gravidade dos crimes cometidos por tais elementos, envolvendo adolescentes e tal falta de limites, impõe resposta enérgica exemplar à sociedade que não pode ser mais oprimida do que já está", dizia o relatório policial, que justificou o desmembramento do caso em um novo processo, distribuído para a 33 Vara Criminal.

Ainda em 2006, a pedido do inquérito da 15 DP, Nem teve a prisão temporária decretada. Estranhamente, em maio de 2007, os mesmos investigadores voltaram a pedir a prisão do traficante. Desta vez, o pedido foi para a prisão preventiva, que, em regra, é feito depois da denúncia do MP, o que ainda não havia ocorrido. O pedido foi indeferido, já que o primeiro mandado de prisão sequer havia sido cumprido.

Por falta de provas materiais sobre o tráfico de drogas, o juiz Luiz Márcio Victer Pereira Alves condenou o traficante a oito anos e quatro meses pelo crime de associação, com todos os agravantes previstos em lei, em 29 de julho deste ano. Na semana passada, a defesa do traficante recorreu da sentença da 33 Vara Criminal. Dos outros nove processos que tramitam na primeira instância do TJ, contra o chefe do tráfico na Rocinha, pelo menos quatro estão suspensos provisoriamente porque, foragido, Nem não poderia ser citado. Em outro processo, da 20 Vara Criminal, a denúncia foi rejeitada.

Mas agora a situação processual do traficante pode piorar: ontem mesmo o juiz Rodrigo José Meano Brito, da 25 Vara Criminal, decretou a prisão de Nem num processo que apura sequestro e cárcere privado, associação para a produção e tráfico e porte Ilegal de arma de fogo de uso restrito:

— Agora que está preso e sem a ajuda de policiais para escapar de flagrantes, tanto os processos que já estão na Justiça, como os outros dez inquéritos de delegacias, incluindo os crimes de homicídio, vão andar — comentou um dos promotores que atuam nas ações contra o traficante.

Uma servidora do TJ, ao tomar conhecimento da prisão do inspetor Carlos Daniel, comentou:

— Na última vez em que prestou depoimento no processo da 33 Vara Criminal, ele disse que a polícia só não prendia o Nem porque não queria.