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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

MP INVESTIGA SE ATOR MORREU POR GÁS LACRIMOGÊNIO EM PROTESTO

G1 FANBTÁSTICO Edição do dia 04/08/2013

O Ministério Público do Rio de Janeiro apura se o ator Fernando da Silva Cândido, morreu por ter inalado gás lacrimogêneo durante um protesto, no mês passado. Ele ficou internado por mais de trinta dias.



Imagens divulgadas na internet mostram o ator Fernando da Silva Cândido na manifestação do dia de 20 de junho, no centro do Rio. O vídeo foi publicado pelo movimento Cinema de Guerrilha da Baixada, um grupo que produz curtas-metragens, do qual Fernando fazia parte.

"Nós temos que lutar pelos nossos ideais. Eu falei que ia vir aqui pra rua. Tô aqui na rua por isso, lutando pelos nossos ideais, pelos ideais do povo, não só pelos anões, mas por toda a sociedade”, disse Fernando.

Naquele dia, ocorreram protestos em pelo menos cem cidades brasileiras. No Rio, depois de uma manifestação pacífica, que levou uma multidão à Avenida Presidente Vargas, um grupo tentou invadir a sede da prefeitura. Houve confronto com a polícia militar nas ruas do Centro. A PM usou balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

Segundo colegas de Fernando, logo depois de participar da manifestação, ele começou a se sentir mal. Kênia Rio é Presidente da Associação de Nanismo do Estado do Rio de Janeiro e amiga do ator. Ela confirmou que Fernando e um colega inalaram gás durante o protesto.

“Ele já começou a passar mal no mesmo dia, no outro dia seguinte ele foi trabalhar, não estava bem. Quando foi sábado e domingo ficou acamado em casa, estava cuspindo sangue. Na segunda, como ele nao aguentou, ele estava preocupado porque ele tava recente no trabalho, estava preocupado em faltar mas segunda-feira ele não aguentou e na terça foi internado”, afirma Kênia Rio, presidente da Associação de Nanismo – RJ.

Num outro vídeo, divulgado na internet, também pelo Cinema de Guerrilha da Baixada, Fernando estava no leito do hospital: “Eu fui fazer o protesto do anão, o protesto pacífico, eles tacaram bomba, tacaram pimenta. Ai passei muito mal e tive que ser internado".

Fernando foi internado no Hospital Israelita Albert Sabin, na zona norte do Rio, em 25 de junho, cinco dias depois da manifestação. Morreu no último dia 31.

O tio de Fernando aceitou gravar entrevista apenas por telefone. José Henrique Alves da Silva disse que há dez anos o sobrinho teve tuberculose, mas conseguiu se curar. Neste período, ele teve outros dois problemas pulmonares. A última internação do ator foi há três anos. Ainda segundo o tio, nos últimos meses Fernando estava bem de saúde.

Fantástico - Ele chegou a dizer pro senhor que foi nessa manifestação no dia 20 de junho lá no Centro do Rio?

"Ele comentou quando estava internado, que ele tinha ido, mas até então ele não tinha passado nem pra mim nem pra minha esposa, que ele tinha passado mal por causa das bombas não. Isso a gente só ficou sabendo através de um vídeo que foi divulgado na internet, só depois do falecimento dele. Se ficar comprovado que foi gás, aí eu vou ter que entrar com uma ação contra o governo. Mas sem eu ter esse laudo, sem ter os resultados finais, o resto dos exames que foram feitos lá no Hospital Israelita, eu não posso eu falar mas pela entrevista que ele deu, ele deixou isso bem claro", afirma José Henrique Alves da Silva.

Em nota divulgada hoje, a diretoria do hospital explicou que o paciente não informou à equipe médica qualquer intercorrência com gás lacrimogêneo.

Ontem, também em nota, a unidade informou que o ator deu entrada na emergência com sintomas de pneumonia. E que como tinha histórico de doença pulmonar prévia, sua evolução não foi satisfatória, apesar do tratamento. E que ele veio a falecer devido ao grave quadro infeccioso pulmonar.

Esta especialista da Fundação Oswaldo Cruz afirma que em pessoas saudáveis, o gás lacrimogêneo pode provocar tosse e irritação nos olhos. Mas, se a pessoa tem uma doença respiratória, está sujeita a complicações. “Dependendo do tempo em que ela é exposta àquela substância inalada e dependendo das suas condições prévias, como pessoa, isso é, se ela é um asmático, se é uma pessoa portadora de uma doença neurológica, se é uma pessoa portadora de uma doença pulmonar dita obstrutiva crônica, se é portadora de graves alergias, essa pessoa pode desenvolver inclusive um quadro de insuficiência respiratória exigindo internação hospitalar”, explica Margareth Dalcomo, pneumologista da FIOCRUZ.

Amigos de Fernando levantaram a hipótese de que o gás usado naquele dia estivesse fora da validade ou acima das quantidades permitidas para uso no Brasil.

Em nota, a Polìcia Militar informou que o equipamento utilizado em distúrbios urbanos, controlado pelo Exército, é fornecido pela empresa especializada de acordo com parâmetros dos fabricantes e que no revestimento do produto não há nenhuma indicação de maior carga. A PM afirmou também que adquiriu munição química recentemente em razão do fim de seus estoques, que sofrem rigoroso controle interno.

A nota diz ainda que não há na literatura policial qualquer menção à morte em decorrência da ação de gás lacrimogêneo. E somente um laudo médico pode ser capaz de esclarecer as causas da morte de Fernando.

A Coordenadoria de Direitos Humanos do Ministério Público do Rio instaurou procedimento para apurar a morte de Fernando. E informou que vai pedir o prontuário médico do paciente ao Hospital Israelita Albert Sabin. Amanhã, procuradores vão se reunir amanhã para discutir as providências que serão tomadas.

“Por hora é muito cedo pra se imputar qualquer resultado a quem quer que seja. Vai depender muito isso pra justiça nesse momento no inquerito apurar se houve essa relação de causalidade, se aquele resultado foi oriundo daquela conduta”, afirma Márcio Mothé, procurador de Justiça.