ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sábado, 10 de agosto de 2013

CASO ISABELLA: PERÍCIA NOS EUA DÁ NOVA VERSÃO

REVISTA ISTO É N° Edição: 2282 | 09.Ago.13 - 20:40 | Atualizado em 10.Ago.13 - 12:11

Caso Isabella: surge uma outra versão. Perícia realizada nos Estados Unidos conclui que a menina de 5 anos não foi esganada antes de ser jogada pela janela e pode reabrir as investigações do processo que condenou 

Anna Carolina e Alexandre Nardonipor Antonio Carlos Prado




DIA A DIA NO CÁRCERE
Anna Carolina em sua cela escrevendo carta
para o marido, Alexandre. Na biblioteca da penitenciária
masculina, ele se interessa pelos clássicos da literatura brasileira



A quinta-feira 25 de julho foi o melhor dia na vida do casal Alexandre Alves Nardoni e Anna Carolina Jatobá Nardoni desde que foram presos em 2008, acusados pela morte da pequena Isabella – filha biológica dele, enteada dela. Logo pela manhã, eles receberam de seus advogados a notícia de que uma perícia sobre o caso acabara de ser concluída nos EUA. No laudo, assinado pelo cientista James Kwangjune Hahn, Ph.D. e diretor do Instituto de Engenharia Biomédica da Universidade George Washington, consta categoricamente que a garotinha, na época com 5 anos, não sofreu esganadura antes de ser arremessada por uma janela do sexto andar de um edifício de classe média na zona norte de São Paulo. O crime ocorrido em março de 2008 chocou o País e, dois anos depois, Anna e Alexandre foram condenados como os autores do homicídio. A ela foi imposta uma pena de 26 anos de reclusão e a ele de 30 anos. A conclusão da perícia feita nos EUA não aponta quem matou Isabella, mas tem força suficiente para reabrir as investigações sobre o caso na Justiça brasileira. Na semana passada, Anna e Alexandre concederam entrevistas exclusivas à ISTOÉ (leia acima e na pág. ao lado) e ambos se mostraram bastante otimistas com a possibilidade de que novas investigações venham a ser feitas.





Segundo a versão policial que fundamentou o julgamento, Anna e Alexandre brigaram por ciúme na noite de 29 de março de 2008. Ela teria então agredido a enteada, agarrando o seu pescoço pela frente com as duas mãos, esganando-a. Alexandre teria cortado a tela de proteção na janela de um dos dormitórios do apartamento e arremessado a própria filha para o jardim do edifício, simulando que sua família havia sido vítima de um latrocínio. Com o resultado da perícia realizada nos EUA, o advogado do casal, Roberto Podval, vai pedir a reabertura do processo. Em casos semelhantes, é comum que o Ministério Público também solicite novos exames periciais para dirimir as dúvidas. O parecer feito nos EUA ao qual ISTOÉ teve acesso tem 100 páginas e cerca de 500 referências bibliográficas internacionais.



Todo o trabalho foi produzido a partir das provas colhidas pela polícia paulista durante as investigações, como fotos, depoimentos, radiografias do pescoço de Isabella e um filme de reprodução simulada que ilustra a versão oficial para o crime. Na conclusão de seus trabalhos, James Hahn afirma: “Comparando-se as mãos de Anna Carolina com as marcas descritas e vistas em Isabella, concluímos que tais marcas não poderiam ter sido produzidas pelas mãos de Anna Carolina” e “comparando-se as mãos de Alexandre Nardoni com as marcas descritas e vistas em Isabella concluímos que tais marcas não poderiam ter sido produzidas pelas mãos de Alexandre”. Hahn observa que no pescoço de Isabella existem três marcas no lado direito e nenhuma na parte anterior, ao contrário do que a polícia diz. “Eu endosso na íntegra o estudo americano”, diz a professora de perícias criminais brasileira Roselle Soglio, que atuou em parceria com a equipe americana. “É importante observar que apesar de hoje os dedos de Alexandre e de Anna poderem estar mais gordos ou mais magros, o que conta na esganadura é a estrutura óssea das mãos, e ela continua a ser a mesma da época da morte de Isabella.” Hahn anota, ainda, que não há sinais de utilização de polegares das mãos do agressor, e eles têm necessariamente de estar presentes em casos de esganadura, pois funcionam como contrapontos de apoio de força para que os demais dedos se fechem, pressionem e asfixiem a vítima. Escreve Hahn: “A dinâmica do evento esganadura descrito no processo não suporta a hipótese de as marcas descritas nos relatórios de autópsia terem sido produzidas por mãos e dedos”.





“Fui aos EUA buscar esse parecer, porque tanto a polícia de São Paulo quanto o Ministério Público costumam elogiar a qualidade do que eles produzem”, diz Podval. Embora saibam que o fato de não ter havido esganadura não os livra automaticamente da acusação de terem matado Isabella, Anna e Alexandre acreditam que uma nova investigação possa trazer outros elementos para o crime. “Não agredi a Isabella, não esganei e não matei”, disse Anna Carolina na sexta-feira 2. Como tem feito nos últimos cinco anos, ela havia acordado às 4h30 para ser a “primeira a tomar banho”, trabalhou até 16h30 na oficina de costura do presídio e iria escrever para Alexandre depois de assistir aos telejornais da noite. “Acho que agora minha vida pode mudar”, disse Alexandre na segunda 29, depois de saber sobre o laudo elaborado nos EUA. Na cadeia, ele acorda às 5h30 e trabalha fazendo carteiras escolares.