ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

domingo, 13 de março de 2011

HIPNOSE NAS INVESTIGAÇÕES POLICIAIS


Polícia de SP vai usar hipnose para fazer retratos falados e investigações. Com apoio de psiquiatras do HC, objetivo é usar técnica polêmica para extrair informações do subconsciente de vítimas e testemunhas - 12 de março de 2011 - Renato Machado e Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Imagine uma testemunha ou vítima de crime deitada confortavelmente em um sofá. Um psiquiatra conversa com ela e usa técnicas de hipnose para quebrar barreiras do trauma. Em poucos minutos, ela revela as informações e em outro ponto da sala um retrato falado do criminoso ganha formas. Embora pareça cena de ficção, o método do hipnotismo é a próxima aposta da Polícia Civil de São Paulo na investigação de crimes graves.

O Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) pretende criar o primeiro setor de hipnose forense do Estado, em sua sede, no centro da capital paulista. O objetivo é extrair informações do subconsciente das pessoas hipnotizadas, para que relembrem informações que consideram esquecidas. O mesmo modelo existiu com sucesso, por mais de dez anos, na Secretaria de Segurança do Paraná, mas acabou suspenso por falta de especialistas.

A proposta surgiu na polícia paulista no fim do ano passado e já foram realizadas duas reuniões com médicos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) para formalizar um convênio. Enquanto isso, já começaram os planos para mudanças na estrutura física do prédio do DHPP. Uma sala específica para o setor de arte forense (onde se elaboram retratos falados) está sendo criada com aspectos de consultório médico: ambiente com isolamento acústico, sofá confortável e antessala para parentes de testemunhas.

Esse setor vai ser inicialmente utilizado pela arte forense e é ali que o DHPP pretende realizar as sessões de hipnose. "A princípio, a orientação para toda a polícia de São Paulo é aperfeiçoar os retratos falados, ferramentas importantes nas investigações", diz o diretor do DHPP, Marco Antônio Desgualdo. "Mas também vamos trabalhar com técnicas para despertar o que testemunhas têm na memória, como foi feito no Paraná. Negociamos um convênio e depois vamos submeter à Delegacia Geral."

Detalhes. Com a ansiedade neutralizada - no chamado "estado alterado de consciência", ou "transe hipnótico" -, vítimas e testemunhas poderão relembrar detalhes que ajudem a elucidar os crimes. A vítima vai lembrar, por exemplo, da roupa que o criminoso usava, ou de marcas em seu rosto. Também recordará detalhes do local do crime. No Paraná, uma pessoa hipnotizada lembrou do emblema de empresa em um caminhão e, a partir dali, encontrou-se o motorista que testemunhou um caso de atropelamento. O criminoso foi encontrado.

A técnica é vista com entusiasmo no DHPP. "Tem tudo para dar certo. Amplia o leque de ferramentas que a polícia tem para elucidar crimes", disse a delegada Fabiana Sarmento, coordenadora do setor de Inteligência do DHPP, que encabeça as negociações do convênio. "Será um setor (o de hipnose) aberto para toda a polícia, útil para ajudar vítimas de crimes graves, que chegam bloqueadas e poderão relaxar e passar mais informações", disse Sidney Barbosa, coordenador de arte forense do DHPP.

A exemplo do Paraná, porém, a hipnose em investigações deve sofrer críticas em São Paulo. A validade desses depoimentos é questionada. "Ao depor, a pessoa deve estar livre e consciente, como prevê a lei. Qualquer depoimento tomado com alguém hipnotizado será visto como prova ilegal", disse o advogado criminalista Carlos Kauffmann, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo (OAB-SP). "A defesa questionará a autenticidade do inquérito."

Para minimizar esse tipo de problema, segundo o DHPP, a técnica será usada apenas em testemunhas e vítimas - suspeitos não serão hipnotizados. Pessoas submetidas à hipnose também deverão autorizar por escrito as sessões.


À mão livre ou digitais, 50 faces por mês. Profissional tem de se fazer muitas vezes de psicólogo, antes de usar micros ou pincéis - 12 de março de 2011, Renato Machado e Vitor Hugo Brandalise - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Poucos dias após o ex-árbitro Oscar Roberto Godói ser baleado, foi divulgado o desenho de um homem com cabelos curtos e crespos, com o rosto fino e posicionado meio de lado. Uma imagem feita com relatos de vítimas - todas crianças - também foi produzida para retratar o rosto do chamado Maníaco da Cantareira. A diferença entre as peças é que a segunda foi feita com tecnologia digital, enquanto a primeira é totalmente artística, feita à mão livre. As duas técnicas são usadas na polícia, que produz cerca de 50 retratos falados por mês. Cada um leva em média 40 minutos para ficar pronto.

O Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) e o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) estão investindo em tecnologia para melhorar os retratos falados. Hoje, há 6 mil perfis no banco de dados, usado como base para criações. "O digital é mais prático, porque a base está montada. Manipulamos a imagem para chegar ao resultado final", diz o perito Lino de Barros, de 46 anos, há nove na área.

Independentemente de ser à mão ou digital, os artistas seguem uma espécie de ritual, passando por psicólogos para relaxar as testemunhas. Nunca pedem relato do que aconteceu, forma de não provocar bloqueios. Para elaborar o retrato do Maníaco da Cantareira, por exemplo, Barros pediu às vítimas - três crianças abusadas sexualmente - que desenhassem o criminoso. "O menor desenhou detalhes importantes, de onde parti. Mostrei a eles e percebi na reação que era parecido."

Yoshiharu Kawasaki, de 46 anos, é um dos poucos que ainda desenham à mão. "Dá liberdade para retratar detalhes", diz o investigador, artista respeitado, que trabalha há 18 anos com retrato falado. O método permite retratar a partir de perspectivas, como o do atirador de Godói. "Vamos avançar em tecnologia, mas manter o artístico. Cada um tem sua importância", diz Tânia Nagashima Simonaka, chefe da unidade de inteligência policial do Deic.