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terça-feira, 1 de maio de 2012

POLICIAIS INTEGRAVAM QUADRILHA QUE ARMAVA BANDIDOS

PARCERIA DESFEITA. Denunciada quadrilha que armava crime organizado. Entre as 20 pessoas investigadas pelo Ministério Público estão um policial militar e um da Civil - CARLOS ETCHICHURY, ZERO HORA 01/05/2012

O Ministério Público denunciou 20 pessoas, entre elas dois policiais, por formação de quadrilha e comércio ilegal de armas na Região Metropolitana. Composta por apenados, comerciantes, um investigador da Polícia Civil e um PM, a quadrilha agia como uma agência especializada em revender pistolas, revólveres, espingardas e munição de diferentes calibres para o crime organizado.

Promotores constataram que armas eram roubadas de empresas de segurança, furtadas de fábricas e desviadas de delegacias da Polícia Civil e de apreensões da Brigada Militar. Parte do armamento também era adquirida em países como Paraguai, Argentina e Uruguai.

A quadrilha funcionava como uma terceirizada do crime: fornecia chips e celulares para presidiários, falsificava documentos e placas de veículos e, principalmente, negociava armas ilegais e munições. Entre os líderes do grupo há detentos que cumprem pena no Presídio Central, na Penitenciária Estadual do Jacuí e até na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas.

– As investigações revelaram que o policial civil repassava à quadrilha armas apreendidas pela equipe da DP. Também fazia isso com armas que eram recolhidas e não eram registradas – explica o promotor André Luís Dal Molin Flores, que assina a denúncia formalizada à Justiça.

O descontrole de armas em DPs foi abordado em ZH nove dias atrás. Um relatório do Controle Externo da Atividade Policial, feito pelo Ministério Público e obtido com exclusividade pelo jornal, revela que, em 2010, havia 870 armas nas delegacias de Porto Alegre.

Pelo menos duas centenas delas eram mantidas “no interior de um baú de madeira trancado com um cadeado”. Os promotores identificaram 102 “sem vínculo a inquéritos ou ocorrências policiais” (não era possível saber por que estavam lá) e 106 que “não tinham destino conhecido” (podem ter desaparecido, portanto).

Soldado e inspetor chegaram a ser presos

Denunciados por Dal Molin, o soldado Cledson Roberto Peixoto da Silva, lotado no 26º BPM de Cachoeirinha, e o inspetor Jorge Luís Machado Ferreira, da 3ª DP de Viamão, tinham sido presos em março pelas respectivas corregedorias. Com Ferreira foram encontrados quatro revólveres e uma espingarda sem procedência.

Segundo o MP, Cledson fazia uso da função de policial para comprar legalmente armas e munições, revendidas à quadrilha. Além dos dois servidores, foram denunciadas 10 pessoas envolvidas diretamente na organização do bando, cinco presidiários que foram flagrados contratando os serviços ilegais do bando e três outras pessoas encarregadas de fazer o meio de campo entre a quadrilha e os detentos.


ENTENDA O ESQUEMA

1) Como as armas chegavam a Gravataí - O grupo atacava empresas de vigilância, trazia armamentos do Paraguai e tinha ramificação em delegacias e batalhões policiais e em indústria de armas.

2) Desvio da polícia - Um PM lotado no 26º Batalhão de Polícia Militar de Cachoeirinha e um agente da 2ª Delegacia da Polícia Civil de Gravataí repassavam “armas de fogo, acessórios e munições ilícitas, usando de suas atividades para desviarem armamento, bem como utilizando da condição funcional para comprar munições...”.

3) Fábricas de armas - Foram identificadas armas da quadrilha sem o número de série, o que sugere envolvimento de criminosos dentro de fábrica de armas.

4) Empresas de segurança - O grupo era especializado em assaltos e arrombamentos de empresas de vigilância e segurança.

5) Contrabando - A investigação apurou que armas também vinham do Uruguai, da Argentina e do Paraguai.

6) O depósito - A quadrilha utilizava-se de comércios em Gravataí e Cachoeirinha para armazenar as armas – duas lancherias e uma tele-entrega.

7) Quem eram os clientes - As armas eram negociadas e revendidas para traficantes, assaltantes e homicidas, muitos deles presos em locais como o Presídio Central, a Penitenciária Estadual do Jacuí e a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).

8) Onde eram usadas - De acordo com a denúncia, criminosos utilizavam as armas para “realização de roubos, guarnecer pontos de tráfico, em confrontos com facções rivais, bem como para praticar outros delitos”.

9) As apreensões - Em pelo menos nove operações foram apreendidas centenas de munições além das seguintes armas: três espingardas, cinco pistolas e 10 revólveres.

Contrapontos -

O que diz Jorge Luís Machado Ferreira - ZH ligou para a 2ª DP de Gravataí, onde Jorge Luís Machado Ferreira estava lotado. Lá, informaram que ele foi transferido para a 3ª DP de Viamão. Ontem ele não estava trabalhando e seus colegas não souberam informar o telefone celular do policial.

O que diz Cledson Roberto Peixoto da Silva, lotado do 26º BPM de Cachoeirinha - “Não estou sabendo da denúncia do Ministério Público e prefiro não me manifestar”.