ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

CURSO SUPERIOR E BONS POLICIAIS: QUAL A RELAÇÃO?


Nelson Gonçalves de Souza - Brasília(DF) - FORUM SEGURANÇA - 21/01/2008
 
Em entrevista ao Jornal do SBT, dia 15/01/2008, durante reportagem sobre a nova exigência de curso superior para soldado da PMDF, um eminente sociólogo da UnB afirmou que o novo requisito era algo muito bom, porém não garantia que, por isso, os selecionados seriam bons policiais.

Constatação inteligente do óbvio, nos faz refletir sobre uma série de incoerências que parecem percorrer o imaginário popular em relação ao acesso cada vez mais comum ao ensino superior no Brasil. É certo que o novo requisito não garante bons policiais, mas também não garante bons médicos, bons advogados, juízes, delegados de polícia e, sociólogos inclusive. E não garante por se tratar apenas de processo educacional formal, há muito desprovido de consistência no que se refere a quesitos como ética, profissionalismo, respeito às pessoas, solidariedade, dentre outros.

Na verdade, ter um curso superior atualmente, não garante nada. Mas, infelizmente, isso acabou por se tornar condição para a obtenção de benefícios diversos para indivíduos que muitas das vezes mal sabem assinar seus respectivos nomes. É comum, nas instituições de ensino superior do DF, identificar indivíduos que, em processo seletivo sério jamais lá estariam. É óbvio que isso não é culpa só deles (se é que se pode estabelecer alguma culpa), mas de um sistema que busca privilegiar cada vez mais os títulos (e os negócios deles decorrentes ou por eles gerados) sem se importar se por detrás dos certificados encontram-se verdadeiros profissionais no mais básico dos sentidos: o de exercer a profissão para a qual se formou com a competência requerida. Quando isso não é possível, perdeu-se aí, de início, qualquer resquício possível de ética e moralidade que deveria constar do rol de requisitos de qualquer profissional. Em muitos casos, trata-se apenas de uma farsa com investidura legal.

É evidente que na polícia militar não será diferente. Porque seria? Acaso os indivíduos que nela ingressam são obras de diferentes fornadas? São nascidos de um canteiro especial, regado a adubos próprios para a produção de policiais? Ou, por outro lado, eles são frutos da mesma sociedade que tem nas diferenças sociais sua principal característica? Se assim é, porque esperar que um curso superior possa moldar bons policiais?

Não, a polícia militar não espera isso. Nenhum de seus integrantes desde os menores graus hierárquicos tem a ilusão de que somente pelo curso superior se construirá uma instituição que possa ser vista como baluarte da ética, da moral, dos bons costumes ou de quaisquer outras virtudes esperadas dos homens de bem.

Mas, é nesse novo requisito que cada policial militar que integra a corporação deposita sua esperança de se ver igualado em termos de reconhecimento e benefícios profissionais àqueles que usam seus respectivos títulos tão somente para, de forma mesquinha, estabelecer diferenças e hierarquias vis em relação a um profissional cuja menor das virtudes é, no mais dos casos, a dedicação à causa pública de servir e proteger a população, com risco certo de sua própria vida.

O que a polícia militar espera e, por conseguinte, cada um de seus integrantes, é que a sociedade que a constituiu seja capaz de reconhecê-la e de entregar-lhe o prestígio e valorização que merece quando o merecer e puni-la quando assim se fizer necessário. Porém, fazendo-o de forma responsável e coerente lembrando que cada policial militar é fruto dessa mesma sociedade e que ao ingressar na corporação trouxe consigo toda a carga de princípios e valores que o processo de socialização lhe legou até aquele então.

Está certo o sociólogo. O curso superior não garantirá bons policiais. Diga-se de passagem, nem salários, nem estatus também garantem. O que, na verdade, garante bons policiais é, dentre outras medidas concretas, a mudança do processo de formação integral de cada brasileiro através da redução das diferenças sociais; do acesso igualitário, em quantidade e qualidade, à educação; da disponibilidade de trabalho digno para que cada pai de família possa ter orgulho de criar seus filhos para se tornarem inclusive policiais; do respeito à vida e às diferenças; e, do culto aos valores éticos, morais e humanitários que há muito parecem ter deixado de contar na formação dos brasileiros de todas as classes. Se tudo isso for possível, seguro que está garantida não só a formação de bons policiais mas, também, a de bons engenheiros, bons médicos, bons políticos, bons professores, enfim, de bons brasileiros e, conseqüentemente, de um grande Brasil.

A polícia militar do DF, no que tange à capacitação técnica desses novos policiais, envidará, como sempre fez, todos os esforços necessários para torná-los os melhores policiais militares que a tecnologia do conhecimento disponível institucionalmente permitir. Não poderá, entretanto, entrar em suas mentes e extirpar dali suas respectivas personalidades, índoles, valores e princípios. Parece que somente um forte e integral processo de ressocialização poderia permitir tal feito.

Apesar de tudo isso, a polícia militar e seus integrantes acreditam que o requisito de curso superior possa contribuir de forma relevante para a construção de um policial mais consciente de suas responsabilidades sociais, mais crítico e proativo diante da realidade social em que se fizer presente e, por tudo isso, mais propício a colaborar, como deve cada brasileiro, para o desenvolvimento de cada cidadão e de si mesmo, melhorando a qualidade de vida das pessoas, das comunidades e da nação.


Fonte:http://www2.forumseguranca.org.br/node/22079

NOTA: Matéria enviada por Rodrigo Brugnole.
"E eles o venceram, pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte." (Ap. 12.11)


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - O curso superior pode não garantir bons policiais, mas com certeza garantem pessoas com melhor conhecimento para decidir com racionalidade mais apurada e aprender os procedimentos legais, as práticas policiais, o manuseio dos equipamentos e a utilização das tecnologias colocados à disposição. Eu sou defensor do curso superior para policiais e este curso poderia ser realizado dentro da área policial a ser ensinado numa Universidade Policial com duas faculdades: a Faculdade de Ciências Sociais de Polícia e a Faculdade de Ciências de Laboratório e Pericias com tempo mínimo de três anos. Hoje, policiais são formados em apenas seis meses e querem que ele saia manuseando armas de guerra, dirigindo viaturas em situação de emergência, mediando conflitos, interpretando as leis, fazendo partos em locais surreais, e agindo num ambiente onde os fatos ocorrem de inopino, as decisões são rápidas,  os locais são inseguros e existe ameaça à vida de policiais e de terceiros. Quando mais os policiais estiverem capacitados, melhor os serviços de segurança. E é argumento para valorizar a profissão e melhoir os salários.