ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

terça-feira, 30 de julho de 2013

PROTESTO E POLÊMICA



ZERO HORA 26 de julho de 2013 | N° 17503

JORNADA NO BRASIL

Os gastos com a vinda do Papa ao Brasil deverão gerar novos protestos, hoje, no Rio. Depois das manifestações de segunda-feira, uma nova polêmica em torno da ação da polícia ganhou espaço nas redes sociais e na imprensa. Entre os temas que repercutem, estão a prisão de um manifestante nas imediações do Palácio Guanabara, a agressão a um fotógrafo (leia entrevista abaixo) e a acusação de que agentes da inteligência da PM, chamados de PM2, estariam infiltrados no movimento para incitar o tumulto.

As imagens vieram à tona depois que policiais militares, em depoimento à Polícia Civil, desmentiram a versão inicial da corporação de que Bruno Ferreira Teles, integrante do coletivo de mídia independente Ninja – Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, era o responsável por lançar a primeira bomba (leia mais ao lado). O jovem foi perseguido, imobilizado com arma não letal e levado para a cadeia.

O coordenador da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio Grande do Sul, Rodrigo Puggina, lembra que nas manifestações em Porto Alegre também houve casos de pessoas detidas e liberadas por não haver materialidade no flagrante.

– É um reflexo da dificuldade que essa polícia militarizada tem para agir nessas situações. A prática de infiltrar agentes da PM2 também colabora para que se gere a discussão de até que ponto a polícia provocou o eventual embate ou se realmente acabou atuando depois de a manifestação perder o controle – observa Puggina.

O coronel da reserva da Brigada Militar Luiz Antônio Brenner Guimarães, integrante do Núcleo Violência, Segurança e Direitos Humanos da ONG Guayi, diz que a infiltração é uma técnica que a polícia usa no mundo todo para obter informações que ajudem a dimensionar a ação.

– Agora, quando há uma denúncia de que agentes foram colocados no meio do protesto para incitar a violência e, de certa forma, legitimar a ação violenta da polícia, estamos falando de outra coisa – pondera Guimarães.

Ele considera que, muitas vezes, é preciso usar a força para restabelecer a ordem. Mas admite que, recentemente, a polícia teve reação maior do que a do grupo que estava enfrentando.

– Temos um processo histórico de formação da polícia em que a violência sempre esteve muito presente, e isso ainda hoje tem reflexos. Cada caso precisa ser analisado – complementa.

Em nota, a PM do Rio negou a acusação de que policiais seriam autores do ataque à tropa. A Inteligência da PM carioca analisa imagens para identificar quem jogou a primeira bomba.

TAÍS SEIBT

ENTENDA O CASO - Bruno Ferreira Teles foi detido na segunda-feira, quando uma manifestação no Palácio da Guanabara terminou em confronto. Pelo Twitter, ainda na segunda-feira, a PM do Rio informou que o jovem foi preso por ter jogado as primeiras bombas na direção dos policiais. Uma mochila com bombas caseiras foi recolhida a 700 metros do local da prisão. Um vídeo mostra que, no momento da perseguição policial, Bruno está sem mochila. Quando ele é pego, uma arma de choque é usada pelos PMs para imobilizá-lo. Bruno desmaia e é arrastado pelos policiais. Quando consegue se levantar, um PM repete três vezes: “Ele que tacou o primeiro coquetel molotov”. Em depoimento à Polícia Civil, um dos PMs que realizaram a prisão afirmou que um homem não identificado atirou o primeiro coquetel molotov contra os policiais e, em seguida, outra bomba foi acesa e entregue a Teles, que teria lançado o artefato contra os policiais. Bruno passou uma noite na cadeia e foi solto na terça-feira porque o juiz considerou não haver materialidade para o flagrante. O Ministério Público analisa o caso e deve se pronunciar a respeito até segunda-feira.

ENTREVISTA - “Me chutaram como se eu fosse uma bola de futebol”

O fotógrafo japonês Yasuyoshi Chiba, 42 anos, da agência France-Presse, agredido por policiais na manifestação de segunda-feira no Rio, conversou por telefone com Zero Hora na tarde de ontem, antes de ir a Copacabana para cobrir mais um ato da visita do Papa ao Brasil. Na entrevista, ele conta como foi a abordagem policial.

Zero Hora – O que você estava fazendo quando foi abordado pela polícia?

Yasuyoshi Chiba – Eu vi um manifestante caído no chão, inconsciente. Não sei por que, mas o homem que estava no chão foi retirado pela polícia. Eu os segui e tentei chegar na frente deles para fazer as fotos, mas um outro grupo de policiais militares que estava esperando por eles fez uma espécie de sanduíche comigo, fiquei entre os dois grupos de policiais. Então, um dos policiais do grupo que estava na minha frente me empurrou fortemente.

ZH – Você tentou se identificar?

Chiba – Eu tinha credencial e minha câmera. Quando ele me puxou, eu levantei as mãos com minha câmera para mostrar que era fotógrafo e não queria partir para o confronto. Então, o mesmo policial me empurrou de novo, bem forte, e depois um outro policial, que estava atrás de mim, me acertou na cabeça com o cassetete. Quando eu tentei sair, outro policial me derrubou e começou a me chutar, como se eu fosse uma bola de futebol. Até então eu não tinha visto que estava sangrando. Quando percebi, mostrei minhas mãos com sangue e pedi para eles pararem. Eles pararam e me deixaram ali no chão.

ZH – Quem te socorreu?

Chiba – Dois voluntários médicos foram ao meu encontro, limparam o sangue na minha cabeça e me levaram para o hospital.

ZH – E agora você está bem?

Chiba – Estou bem. Minha ferida na cabeça tem quatro centímetros, levei três pontos.

ZH – Você já tinha passado por uma situação parecida no exercício de sua profissão?

Chiba – Não. Estou há dois anos no Brasil, eu já trabalhei no Quênia, na África, e nunca aconteceu nada parecido com isso. Não sei por que eles me bateram. Eles poderiam ter dito para não segui-los, mas começaram a me bater. Não era um ataque necessário. Não são todos os policiais que agem assim, é preciso dizer isso.

FYASUYOSHI CHIBA FOTÓGRAFO DA AFP