ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

UM ANO DE MISTÉRIO EM MORTE DE ADOLESCENTE


ZERO HORA 26 de maio de 2014 | N° 17808

JOSÉ LUIS COSTA

POLÍCIA.  ENIGMA DE UM ANO. Mistério em morte de adolescente

FAMÍLIA DE EDUARDO FÖSCH DOS SANTOS, encontrado morto em um condomínio da Capital em abril do ano passado, tenta na Justiça a reconstituição do caso baseada em uma perícia particular. Para a Polícia Civil, jovem sofreu uma queda acidental


Era uma festa só para adolescentes amigos de escolas tradicionais da zona sul de Porto Alegre no Condomínio Jardim do Sol, no bairro Cavalhada.

Ao som de música eletrônica, os quase 150 convidados podiam beber cerveja, vodca e energético à vontade naquela noite de sábado 27 de abril de 2013.

Durante a madrugada, um estudante de 17 anos desapareceu sem ninguém perceber. Nem mesmo os três seguranças – únicos adultos presentes – contratados para vigiar a noitada juvenil.

Na manhã seguinte, o garoto foi encontrado agonizando nos fundos do pátio da casa vizinha – seis metros abaixo do terreno da residência onde ocorrera a festa. A vítima tinha ferimentos na testa, na nuca, no tórax e na mão direita. Passou oito dias hospitalizado, mas não resistiu a lesões decorrentes de um traumatismo craniano. Este é o enredo que envolve a morte do estudante Eduardo Vinícius Fösch dos Santos, um enigma que perdura há mais de um ano, até então, tratado pela Polícia Civil como queda acidental.

O caso, agora, ganha novos contornos por conta de uma perícia particular contratada pela família da vítima que levanta suspeitas a respeito de um eventual assassinato. O conteúdo do documento levou o Ministério Público a pedir a remessa do inquérito para uma das varas do júri que julgam crimes dolosos contra a vida, que decidirá se a investigação será reaberta.

Enquanto isso, a família do jovem solicitou à Justiça uma série de providências, entre as quais a reconstituição do caso e a exumação do corpo do jovem para que médicos legistas investiguem as causas que levaram à morte.

O jovem permaneceu pelo menos cinco horas inconsciente estirado de costas sobre um piso de concreto com sangramento na testa e na nuca até ser encontrado pela dona da casa que chegava de uma viagem. Eduardo estava com pés embaixo de uma escadaria e sem sinais de ter se arrastado porque não havia rastro de sangue. A mulher chamou uma ambulância e, com celular, fotografou e filmou Eduardo antes de ele ser levado para o Hospital de Pronto Socorro (HPS). Horas depois, não havia uma gota de sangue no pátio. Conforme relato da dona da casa à polícia, alguém até hoje não identificado limpou o local.

O perito criminalístico aposentado do IGP Celso Menezes Danckwardt montou seu parecer com base nas imagens de Eduardo caído ao solo e em prontuários e exames médicos no HPS que referem as expressões “suposta agressão” e “agressão física”. Especializado em atendimento em locais de crimes, Danckwardt concluiu que Eduardo foi vítima de agressões. O jovem teria machucado a mão direita durante uma briga, levado um chute no tórax, golpeado com uma possível paulada na testa e depois, já desfalecido, arremessado sobre o muro para o pátio vizinho, batendo com a nuca no chão. Eduardo chamava a atenção por ser o único negro entre a garotada. Não tinha sido convidado para a festa, mas acabou entrando porque era conhecido pelo grupo.


CRONOLOGIA DO CASO

- Na noite de 27 de abril de 2013, um grupo de 150 adolescentes se reuniu para uma festa em uma das residências no Condomínio Jardim do Sol, no bairro Cavalhada, zona sul de Porto Alegre. Entre os presentes, o estudante Eduardo Vinícius Fösch dos Santos, 17 anos.

- Com banheiros lotados, jovens passaram a urinar no pátio da moradia, parte dele escuro e com declives. Nos fundos, havia uma horta separando o terreno do pátio vizinho, seis metros mais baixo.

- Conforme relatos de amigos, Eduardo sumiu da festa por volta das 6h ao caminhar em direção aos fundos. Perto das 11h, uma moradora da casa vizinha encontrou Eduardo agonizando nos fundos do seu pátio.  Aparentemente, o jovem teria caído ao ir até a horta para urinar. Foi hospitalizado e morreu oito dias depois.

PERGUNTAS SEM RESPOSTAS

1 Por que a perícia não foi acionada para ir ao local onde Eduardo teria caído?

2 Quem limpou o sangue no local após Eduardo ser levado ao HPS?

3 Por que o segurança que estava nos fundos do pátio onde a vítima teria passado antes da queda é o único a afirmar em depoimento à polícia não ter visto Eduardo na festa?

4 Por que Eduardo apresentava sinais de lesões no dorso da mão direita como se tivesse desferido socos?

5 O ferimento na testa de Eduardo é anterior à queda? Qual a causa?

6 Por que os nove sinais encontrados nos tênis de Eduardo contêm sangue, supostamente projetados de cima para baixo, enquanto ele estava de pé?

7 As marcas de passadas largas e profundas nos fundos do pátio, indicando que alguém correu em direção ao local, são de Eduardo?