ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

CONFUSÃO ENVOLVENDO POLICIAL EM DP RESULTOU EM MORTE DE OUTRA PESSOA

FANTÁSTICO Edição do dia 04/05/2014

'Ele pedia socorro', conta irmão de baleado por policial em delegacia


Fantástico conversou com testemunha que relata o que ocorreu. Confusão em SP envolvendo agente policial resultou ainda na morte de outra pessoa.


Fantástico conversou com uma testemunha que relata como foi a confusão que levou ao desespero quem estava no Distrito Policial.
Uma confusão, que acabou em tragédia, envolve a delegacia de polícia da Grande São Paulo. Por que o agente policial André Bordwell da Silva, segundo a polícia, sacou uma arma e atirou, matando um médico e deixando gravemente ferido um professor de educação física?
“Tiros, tiros, tiros. E eu só escutava a voz do meu irmão gritando, pedindo socorro, que ele ia morrer”, lembra Gustavo Grillo, irmão de Ricardo Grillo.
Gustavo estava na delegacia no momento do tiroteio. Ele e o irmão, Ricardo, tinham ido retirar o carro da família roubado durante a semana. “No sábado, eu estava em casa e aí a Polícia Militar ligou para a gente falando que o carro foi achado com dois bandidos dentro. A gente foi na delegacia para fazer a retirada do veículo”, conta.
Ricardo foi baleado cinco vezes. “Na verdade, eles foram vítima duas vezes. A gente fica tentando entender algo que não tem como entender”, diz Walter Karl Marlow, pai das vítimas.
“Parece que é um sonho, que não está acontecendo um negócio desses, não só com a gente, mas com outras famílias. É muito complicado”, diz a mãe.
Médico que morreu baleado estava na delegacia para registrar acidente de trânsito

Na delegacia, estavam também o médico Ricardo Assoname e a sua noiva Cíntia Akemi. Eles foram registrar uma ocorrência de acidente de trânsito. Os quatro aguardavam sentados na recepção.
O Comando da polícia ainda investiga e não quer dar detalhes sobre o que aconteceu. Mas o Fantástico vai reconstituir a história a partir do que viram os dois irmãos.
A certeza é de que tudo começou quando um policial militar, que estava de folga, fugia de dois assaltantes que tentavam roubar sua moto no sábado, dia 26 de abril.
O Fantástico obteve com exclusividade acesso ao depoimento do policial militar Felipe de Oliveira Paula, em que ele afirma que, instantes antes, os assaltantes tinham "efetuado disparos contra a sua pessoa". E que, para chamar atenção da delegacia, "efetuou brusca freada, caiu da moto que acabou sendo acelerada". Ele afirma que não chegou a ingressar no Distrito.
“A gente escutou um barulho, não sei se é de moto, um barulho muito forte, que assustou todo mundo, aí começou a correria na delegacia”, relata Gustavo.
O médico, Cíntia, Gustavo e o irmão correram para a parte de trás da delegacia. Lá dentro, estava o funcionário de telecomunicações André Bordwell da Silva. Que é um agente policial, e pode andar armado. De acordo com as investigações da Corregedoria da Polícia Civil, André achou que a delegacia estava sendo invadida e passou a atirar.
Ricardo está internado e não tem condições de dar entrevista. Ele contou para a família que, logo que ele e o irmão viraram o corredor, foram surpreendidos por um policial, agachado, atirando.
Gustavo conseguiu correr até a porta e se escondeu em baixo de uma escada. “Fiquei abaixado, não vi mais meu irmão e a gente só escutou barulhos de tiro. Tiro para todo lado”, ele conta.
Ricardo levou cinco tiros: três na região do abdômen, um na perna direita e outro no pé. “Ele pedia socorro, socorro, alguém me ajuda por favor e gritava”, relembra Gustavo.
Gravemente ferido, Ricardo se arrastou até a sala ao fundo. Ele confirmou que outros policiais estavam ali e também atiravam.
“Acabaram os barulhos e eu saí para socorrê-lo. Aí eu o vi todo ensanguentado, cheio de sangue. Eu peguei ele pela mão, o outro PM pegou ele pelo braço, colocamos ele na viatura e fomos deixa-lo no hospital”, diz Gustavo.
O irmão de Gustavo não foi a única vítima. O médico Ricardo Assoname levou um tiro na cabeça e morreu.
Durante a confusão, um investigador de polícia acertou o peito de André. Ele está internado em um hospital sob escolta da polícia. Quando se recuperar, vai direto para a cadeia. Foi autuado em flagrante por homicídio doloso.
O Fantástico conversou por telefone com a mulher do agente, que disse que André afirma que só disparou a arma, porque antes atiraram nele.
“Esse caso é um absurdo. É uma aberração social, porque isso mostra, assim: ‘n’ incompetências do Estado. Todos os policiais que estavam ali dentro, o Estado que deu essas armas para eles, para essas pessoas. Eu tenho que treinar essas pessoas, eu tenho que fiscalizar essas pessoas. E não é treinamento só técnico, de mirar no alvo e acertar. É um treinamento psicológico. Segurança pública é educação, é estratégia, é saber para quem eu dou uma arma”, avalia Herick Berger, advogado da família.
O estado de saúde de Ricardo é grave. Gustavo mandou ao Fantástico uma foto dos dois juntos quando o irmão estava ainda no quarto. Neste domingo (4) de manhã, Ricardo voltou para a UTI, está com pneumonia. Gustavo não vai esquecer a angústia que viveu no meio do tiroteio.
“Você ver seu irmão jogado, tomando tiro, sangrando. Eu vi o médico no chão, jogado, com a cabeça saindo sangue”, relata Gustavo.
“Para para nós, como pais, foram os piores dias de nossas vidas E está sendo ainda”, diz o pai de Gustavo e Ricado.