ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A IMAGEM DA POLÍCIA

A IMAGEM DA POLÍCIA - Editorial Zero Hora,93/12/2010

Mesmo com o sucesso registrado pelo filme Tropa de Elite e com a bem-sucedida megaoperação policial em favelas do Rio de Janeiro, a imagem da polícia continua muito desfavorável entre a população. Levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com brasileiros de cinco regiões do país revela que a população se vê permanentemente às voltas com uma aflitiva sensação de insegurança e não confia na polícia de maneira geral. Além de considerarem ruins ou péssimos os serviços prestados na área, os brasileiros denunciam preconceito nas abordagens, que tendem a ser mais severas nas faixas de menor renda. O fato de a divulgação dos resultados coincidir com uma série de denúncias de abusos nas ações empreendidas no chamado Complexo do Alemão, no Rio, reforça a importância de uma análise mais demorada sobre a questão.

Certamente, não pode haver combinação mais perversa do que um elevado percentual da sociedade com medo de ser vítima de assassinato – temor manifestado por nove entre 10 entrevistados –, de um lado, e baixa confiabilidade nos servidores da área de segurança, do outro. O agravante apontado pelo levantamento, que compõe o Sistema de Indicadores de Percepção Social (Sips) sobre segurança pública, é a particularidade de os entrevistados apontarem preconceito e desrespeito na atuação dos policiais, relacionados diretamente à condição social e ao grau de instrução dos cidadãos. Além disso, a maioria dos entrevistados enumera problemas no atendimento devido à precariedade da infraestrutura, ainda mais visíveis quando o contato é feito por telefone, o que recomenda mais investimentos tanto em recursos humanos quanto materiais.

No momento em que o país reforça a luta por menos desigualdade e por mais acesso aos recursos oferecidos pelas novas tecnologias, é imprescindível que as forças policiais possam se adequar às exigências atuais. Iniciativas como as deflagradas no Rio e em outros Estados, com o objetivo de libertar as comunidades do jugo do crime organizado, sustentado em grande parte pelo narcotráfico, significam um esforço importante para alcançar este objetivo. Mas, obviamente, não dá para esperar que problemas acumulados durante tantas décadas de omissão das autoridades possam ser enfrentados unicamente com ações repressivas, cujos efeitos tendem a ser apenas imediatos.

O que os brasileiros vêm assistindo agora no Rio tem o mérito de demonstrar a viabilidade de o poder público enfrentar o crime organizado. Ao mesmo tempo, indica que não haverá resultados consideráveis sem uma relação harmoniosa entre a imensa maioria da população que trabalha e tem preocupações éticas, de um lado, e servidores íntegros no âmbito da segurança pública, de outro. Esta é uma precondição para o Estado recuperar com bons serviços os espaços ocupados hoje pelo crime organizado, com ganhos para toda a sociedade.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Esta guerra do Rio está servindo para acordar a sociedade e as autoridades governantes. Antes enxergavam apenas as mazelas da polícia e sua inoperância diante para conter o crime. Agora, conseguem vislumbrar que a culpa é de um Estado que não soube valorizar sua polícia e não sabe que segurança pública é um conjunto de ações e processos administrativos, jurídicos e judiciais onde o aparato policial é apenas uma ferramenta inicial e muito importante no contexto.

Até agora, este homens e mulheres, que colocam suas vidas em risco por salários miseráveis para cumprir um dever para com a sociedade, eram tratados com desprezo, com revanchismo e com antagonismo como se fossem produtos do submundo a serviço dos poderosos.

Pois, bem. Eles mostraram que são baluartes da paz, do sossego, da tranquilidade e da convivência pacífica, e os únicos agentes públicos à disposição 24 horas da sociedade. Onde estão os outros na madrugada? Alguns agentes públicos regiamente pagos pela sociedade só dão continuidade em gabinetes aos esforços de agentes que arriscam a morrer nos perigosos conflitos, tiroteios, mediações difíceis e tensão psicológica elevada. Não é a toa que os policiais sofrem com estresse, pânico, vícios, problemas mentais e psicológicos. Sem falar da insegurança financeira, resultado dos salários miseráveis que recebem.