ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

DEFICIÊNCIA - VENDER O QG PARA COMPRAR VIATURAS

RJ: comandante da PM quer vender quartel e melhorar frota - 26 de dezembro de 2010 - Portal Terra, O Dia.

Ao pedir o reforço dos blindados que passaram sobre carros e barricadas no Complexo do Alemão em novembro e dezembro, a Polícia Militar do Rio tinha ciência de suas próprias limitações. Um dos principais objetivos do comandante-geral para 2011, coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, é substituir os veículos que ele classifica como obsoletos. O oficial falou ainda sobre a contratação de PMs reformados como instrutores, a criação de convênios com prefeituras para elevar a remuneração dos policiais e revelou também projetos como a venda do Quartel-General da corporação.

A polícia não entrava no Alemão havia três anos. Para Duarte, "com o avanço das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras), um sem-número de lideranças foi para o Alemão. Aqueles que estavam lá tiveram sua fileira engrossada pelos líderes. Quando fugiram levando suas armas, aquela foi a chance de a gente tirar deles a massa das suas armas". Porém, para o oficial, isso não significa o fim de facções como o Comando Vermelho. "Eles estão tentando se reorganizar, o que vai ser bastante difícil se nós não permitirmos".

Quanto a reclamações de que ainda há venda de drogas na região, o comandante disse que não há a "crença de que podemos acabar tanto com a demanda quanto com o comércio de drogas. Acreditamos que, mesmo nas áreas onde já tem Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o comércio de drogas vai continuar existindo". No entanto, ele afirmou que uma mudança no estilo de venda faça com que seja necessário "Mais investigação, mais inteligência, menos força. Serviço de polícia convencional".

"Se na Vila Cruzeiro ainda existem locais de venda de drogas, vai ser muito mais fácil trabalhar com investigação para prendê-los", disse. "E com o comércio das drogas, de forma totalmente diferente, sem os fuzis, a munição, vamos agir de uma forma diferente, com a inteligência e a prevenção", afirmou.

Novas UPPs

"O que é preciso entender é que o projeto de ocupar morro não é só UPP. Vamos fazer também companhias destacadas. Já temos no Morro Azul, vamos fazer no Camarista Méier e em outras áreas, que não têm características que exigem uma UPP e que vão receber quartéis descentralizados", disse.

Quanto à formação de novos PMs (o Estado espera aumentar em 7 mil o número de policiais), Duarte afirmou que a polícia está construindo duas novas companhias pedagógicas no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cefap), para o início do ano. A PM vai também "fazer também a contratação de pessoal, professores e instrutores entre os militares da reserva, para produzir as quantidades necessárias de pessoas para formar esses novos homens", disse Duarte.

O novo efetivo, afirmou Duarte, será empregado tanto nas ruas como nas UPPs. "Se observar as ruas, já dá para ver um número de policiais hoje que não tinha antes. As pessoas comentam: 'caramba, o policiamento nas ruas voltou'. E a população começou a sentir mais porque tem mulheres, né? As mulheres se destacam no policiamento a pé. Essa é a ideia", disse.

Quanto aos arrastões, ele disse não ser possível usar blindados nas vias expressas. "Isso é área de patrulhamento com viaturas. Os blindados são para transitarmos onde o tráfico ainda mantém domínio territorial. No futuro, da mesma maneira que não vamos precisar do fuzil, não vamos precisar dos blindados", disse. "A preocupação é cada vez mais aumentar o policiamento a pé".

Para o reforço do policiamento, Duarte disse que a PM aposta em um convênio com a prefeitura para contratar policiais de folga, que trabalham uniformizados. "Em vez de vender sua força de trabalho na folga para o Seu Manoel da padaria ou alguém que não esteja dentro da legalidade, ele vende para as prefeituras. Temos três interessadas: Rio, Rio das Ostras e Búzios", disse.

Segundo ele, isso permite sonhar com o policial fazendo serviços que não o desqualifique. "É o fim da privatização da segurança pública. Tem muita gente hoje envolvida com segurança privada e trabalhando na segurança pública". Ele citou ainda a remuneração de policiais em São Paulo, que chegam a ganhar R$ 1,5 mil com a proposta de convênio com as prefeituras, mencionadas por Duarte. "É um outro salário", disse.

Deficiências da PM

Para o comandante, a deficiência da PM se passa nos blindados. "A frota está obsoleta. Nossos blindados são carros de transporte de valores adaptados a uma situação que, nos primeiros anos, serviu. Mas os criminosos adotaram condutas que inviabilizaram nossos blindados para toda situação", afirmou.

Duarte afirmou ser necessário substituir 80% da frota sem descartar o que há disponível. "Temos um blindado russo em teste com o Bope e outros que deverão chegar", afirmou. Os veículos deverão desempenhar atividades diferentes, como o transporte de um contingente menor de oficiais, patrulhamento em áreas violentas, ou empurrar obstáculos.

Para tanto, a PM tem investimentos na ordem de R$ 1,5 bilhão até 2016. "Aí a gente pensa em tudo: parte terrestre, apoio aéreo, aeronaves não tripuladas, tecnologia de informação que implica em câmeras, etc. Além de coisas simples, como a compra das pistolas e coletes, para que cada policial tenha seu equipamento", afirmou Duarte.

Venda de quartel

"Sou um soldado. Não sou convidado, sou convocado. Se o governador mantiver a convocação, o soldado estará a postos, claro. Temos muitos planos, principalmente o Centro de Operações Especiais". Duarte afirmou que a PM busca quarteis com autossustentação. Uma ideia é vender o Quarte General, "com objetivo de quem comprar manter a história, porque a igreja, por exemplo, não é tombada. A ideia é ter um quartel vertical, mais moderno, com menos espaço, menos gente e colocar mais esse pessoal administrativo para serviço de rua".

Questionado sobre a Rocinha, na zona sul, Duarte disse que "da mesma forma que falei sobre os criminosos do Complexo do Alemão, a hora da Rocinha vai chegar".