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quinta-feira, 19 de julho de 2012

POLICIAIS SÃO CONDENADOS POR LAVAGEM DE DINHEIRO

Policiais são condenados por lavagem de dinheiro a mais de 16 anos de prisão. O grupo de inspetores conhecidos como “Inhos” recebia dinheiro para não reprimir contravenção

Antonio Werneck
O GLOBO 19/07/12 - 9h46


RIO - Seis anos depois de a Polícia Federal deflagrar no Rio a Operação Gladiador, levando à prisão contraventores e um grupo de policiais acusado de receber dinheiro para não reprimir a ação da máfia dos caça-níqueis, comandada por Fernando Iggnácio de Miranda e Rogério Costa de Andrade e Silva, a Justiça Federal condenou, por lavagem de dinheiro e ocultação de bens, três ex-inspetores da Polícia Civil e dez parentes deles. Um dos condenados, a cinco anos, quatro meses e 24 dias de reclusão em regime semiaberto, além de multa e perda do cargo, é o ex-policial civil Jorge Luis Fernandes, o Jorginho.

Ele integrava o grupo dos “inhos” — como ficou conhecido um núcleo formado por mais dois inspetores, Fábio Menezes de Leão, o Fabinho, e Hélio Machado da Conceição, o Helinho —, que, segundo a PF, teria como chefe o ex-delegado e ex-deputado estadual Álvaro Lins, que na época da Operação Gladiador era chefe de Polícia Civil. Apesar das provas produzidas pela Polícia Federal indicarem a suposta participação de Jorginho numa quadrilha de contraventores acusada de contrabando e corrupção, ele foi o único do grupo dos “inhos” absolvido num julgamento em 2010.

A sentença que condenou Jorginho é assinada pela juíza Karla Nanci Grando, da 4ª Vara Federal do Rio e foi tomada em abril deste ano, mas somente agora o segredo de Justiça foi suspenso e seu conteúdo, divulgado no site da Justiça Federal do Rio. Além de Jorginho, foram condenados, também por lavagem de dinheiro e ocultação de bens, os outros “inhos”: os ex-inspetores Fabinho (a seis anos de reclusão e 133 dias/multa no valor de um salário mínimo) e Helinho (a cinco anos e três meses de prisão). Todos, incluindo os dez parentes dos ex-policiais, podem recorrer da decisão em liberdade. A Justiça também mandou confiscar 19 imóveis comprados pelos acusados e registrados em nome de terceiros.

No curso do processo, descobriu-se que o grupo dos “inhos” usou parentes como “laranjas” para comprar imóveis e veículos. Na época da Operação Gladiador, um inspetor da Polícia Civil recebia cerca de R$ 2 mil. As investigações da PF comprovaram que os acusados tinham patrimônio incompatível com os vencimentos. Jorginho, por exemplo, de acordo com o Ministério Público Federal, colocou pelo menos dois imóveis, dos vários que comprou, no nome da ex-sogra.

A quadrilha de contraventores à qual os “inhos” dariam apoio tinha, na verdade, três grupos que lutavam entre si pelo controle dos pontos de exploração do jogo. A disputa envolvia, além de Fernando Iggnácio e Rogério de Andrade, o ex-policial federal Paulo César Ferreira do Nascimento, o Paulo Padilha. Os “inhos” colaboravam com Rogério. Segundo a denúncia apresentada pelos procuradores federais, Jorginho, por exemplo, agiria de modo a facilitar o retardamento ou a paralisação de investigações polciais sobre crimes cometidos pela quadrilha, assim como para desencadear operações contra o grupo rival comandado por Fernando Iggnácio.

Num dos grampos telefônicos feitos pela PF e reproduzido na sentença, Fabinho conversa com Alexandre Sérgio Alves Vieira, o Tande, então assessor de Álvaro Lins na Alerj. O diálogo é sobre uma fotografia em que Jorginho e Helinho aparecem numa foto feita durante a prisão de Iggnácio, na Barra da Tijuca.

— Sabe aquela prisão que eu te falei? (a de Iggnácio) — pergunta Fabinho. — Tá todo mundo com ódio mortal dele (Helinho).

— Ódio mortal, por quê? — pergunta Tande. — Ele só tirou aquela foto, cara.

— Positivo, que saiu na foto. E tu sabe porque que ele fez isso, né?

— Pra... pra tirar onda? — pergunta Tande.

— Tirar onda, filho? A conta bancária dele (Helinho) engordou uns trezentinhos (R$ 300 mil), filho. Só por causa daquela foto (...) O nosso amigo lá (Jorginho), acho que a conta engordou um pontinho (R$1 milhão), filho, um pontinho. Três zerinhos. Só naquilo ali, cara. No alemão, no inimigo (Fernando Iggnácio).

Em 2010, a 2ª Turma Especializada do Tribunal Regional Federal (TRF) da 2ª Região (Rio e Espírito Santo) determinou a prisão de Fernando Iggnácio e Rogério Andrade. Os dois, no entanto, recorreram ao Supremo Tribunal Federal e conseguiram o relaxamento da ordem de prisão.

Saiba mais sobre a disputa

A guerra entre Rogério de Andrade e Fernando Iggnácio Miranda começou numa disputa familiar, após morte do bicheiro Castor de Andrade, vítima de um enfarte em 11 de abril de 1997. Castor teria escolhido o sobrinho Rogério para comandar o jogo do bicho na Zona Oeste e em outras regiões do estado. Inconformado com a decisão, Paulo Roberto Andrade, filho de Castor, começou uma guerra contra Rogério pelo controle da contravenção na região.

A guerra entre os primos recrudesceu em 1998, quando Paulo Andrade e um segurança foram assassinados na Barra da Tijuca. Meses depois, a polícia identificou como autor dos disparos e prendeu o ex-PM Jadir Simeone Duarte. Em depoimento, Duarte acusou Rogério de ser o mandante do crime.

Com a morte de Paulo, seu cunhado, Fernando Iggnácio, assumiu seu lugar na disputa. De acordo com investigações da polícia, desde a metade da década de 1990, Fernando Iggnácio controlaria a Adult Fifty, empresa que explorava caça-níqueis em toda a Zona Oeste.

Em 1998, Rogério de Andrade teria fundado a Oeste Rio. Com a queda nos lucros do jogo do bicho, a cobiça pelo mercado de caça-níqueis aumentou e os dois entraram em guerra em 2001.

No mesmo ano, a polícia deu início a uma operação para apreender caça-níqueis no estado. Os inimigos entraram em guerra e passaram a atacar as máquinas uns dos outros. Dos ataques passaram a assassinatos. Segundo a polícia, ao longo de nove anos, o conflito provocou pelo menos 50 mortes.

O próprio Rogério foi vítima de uma tentativa de assassinato em 2001. Em abril deste ano, outro golpe. O filho de Rogério de Andrade, um jovem de 17 anos, morreu num atentado na Barra. Em vez do pai, era o rapaz que dirigia o carro quando uma bomba explodiu.