ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

METADE DOS POLICIAIS DE UPP SE ACHA MAL PREPARADA

ANCELO.COM - O GLOBO. 12.07.2012. pesquisa

Jorge Antonio Barros


Os policiais militares lotados em Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) se consideram mais bem preparados para atirar do que para fazer policiamento comunitário, que em tese é a principal atribuição deles. Eles afirmam ter consciência de que a mediação de conflito entre moradores é uma missão da UPP (93,8%, o maior índice), mas 79,4% deles afirmam que a atividade realizada com maior frequência pelos policiais de UPP é a abordagem e revista de suspeitos, assim como atua a polícia que não está nas favelas pacificadas. Entre 2010 e este ano, caiu de 63,1% para 49,1% a avaliação daqueles policiais sobre acham que foram mal treinados para trabalhar adequadamente nesse tipo de serviço -- ou seja a cada dez, cinco policiais de UPP criticam a própria formação para o trabalho, recebida da PM. Sobre as condições de trabalho houve melhora em alguns itens, como as instalações da sede, sanitários e escalas de trabalho, e piora em outros, como pontualidade na gratificação e auxílios para transporte e alimentação. Apesar disso, houve ligeiro aumento no nível de satisfação dos policiais -- de 41% em 2010 para 46% na pesquisa atual. A maioria desses policiais considera importante continuar portando fuzil (92%), arma que não combina com policiamento comunitário.


Esses são alguns dos resultados de uma nova pesquisa sobre o que pensam os policiais de UPP, feita pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CeSec), com apoio da Fundação Ford e apoio operacional da Secretaria de Segurança e da PM. A primeira pesquisa, feita em 2010, abordou apenas nove UPPs e agora mais 12. Na amostragem foram ouvidos 865 policiais -- 94,8% são soldados e 5,2% cabos. Existe um total de 24 Unidades de Polícia Pacificadora com cerca de cinco mil policiais militares.

-- As UPPs não são algo definitivo e acabado . Estão sujeitas a mudanças e correções de rota. Os resultados da pesquisa, portanto, não são um retrato estático, mas buscam justamente captar a evolução desse processo. O sucesso das UPPs depende particularmente dos policiais ali lotados. Daí a importância de conhecer suas percepções e avaliações e sobre o próprio trabalho que realizam -- afirma Julita Lemgruber, diretor do CesEc, e uma das coordenadoras da pesquisa, assim como as pesquisadoras Bárbara Soares e Leonarda Musumeci.

A pesquisa deste ano contou com o trabalho de 19 pesquisadores em campo. Foi um trabalho de profundidade que contou também com a colaboração dos próprios policiais que responderam com a garantia do anonimato e foram escolhidos por sorteio a partir de lista enviada pelo comando de suas unidades. Eles se dividem na percepção que têm dos moradores em relação ao trabalho feito pela UPP -- 46% acham que a maioria dos moradores tem sentimentos negativos (como medo, desconfiança ou raiva) e 44% consideram que a população local tem sentimentos positivos (simpatia, admiração, aceitação), enquanto que 10,3% acham que a indiferença é o sentimento predominante. A percepção de sentimentos positivos era maior na pesquisa anterior -- 66,5% -- enquanto que a de negativos era menor (28,5%).

Sem esse objetivo, a pesquisa comprova que o policiamento comunitário ainda não é totalmente explorado pelas UPPS. A maioria dos policiais diz que realiza com frequência abordagem e revista de suspeitos e recebe queixas da população (52,9%). Apenas 37,4% deles afirmam reunir-se frequentemente com os superiores e só 5% dizem reunir-se com frequência com moradores. São poucos também os que mantêm contato com instituições da comunidade, como associações de moradores, igrejas e ONGs, entre outras. Parecem confirmar o mito de "Tropa de Elite", de que PM detesta ONG.

Na avaliação da formação, os policiais consideram que agora estão mais bem preparados para atirar (passou de 52,5% para 64,9%), enquanto que para o policiamento comunitário caiu a percepção, de 81,5% para 64,2% -- uma queda de 21%. Para eles, o preparo para a mediação de conflitos entre os moradores cresceu de 45,8% para 50,1%. No quesito armamento menos letal, que costuma ser útil no policiamento comunitário, caiu de 37,7% para 33,6%.

No patrulhamento da área, aumentou a movimentação dos policiais -- a ronda a pé na comunidade subiu de 29,8% para 37,6% na resposta da atividade que realizam na maior parte do tempo. Abordagem e revistas de suspeitos (74,5%) e registro de ocorrências em delegacias (49,3%) são outras atividades que tomam o tempo dos policiais lotados em UPPs.

Apenas dois itens relativos a condições de trabalho listados no questionário foram avaliados como bons pela maioria dos policiais: relacionamento com os policiais dos batalhões (64%) e escala de trabalho (52%).

A pesquisa descobriu que caiu de 69% para 59% o percentual de PMs que não gostariam de trabalhar em UPP. Ou seja: a maioria ainda está ali contrariada. Do total de ouvidos, 33,2% estão parcial ou totalmente identificados com o projeto de pacificação,enquanto que 51,3% são neutros e 15,5% são parcial ou totalmente resistentes.

O perfil dos policiais lotados em UPPs é basicamente o seguinte:

- Mulheres são 11%, mais do que o índice verificado na tropa da PM, que é de 7%.
- Faixa etária: de 25 a 33 anos
- Escolaridade: 52% têm ensino médio completo e 28,9% superior incompleto
- Renda pessoal: 63% têm de 3 a 5 salários mínimos
- Renda familiar: 52%, de 5 a 10 salários mínimos
- Tempo na PM: 47,2% têm de dois a cinco anos
- Tempo de formação: 83%, de 7 a 9 meses
- Casados: 52%
- Têm pelo menos um filho: 48.3%