ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

MONÓLOGO A DOIS


TEXTO DE DESPEDIDA


Há pouco menos de um ano assumi o compromisso de comandar 700 homens na Unidade de Polícia Pacificadora de uma das maiores comunidades do Brasil: a Rocinha. Não por acaso aceitei o desafio, pois desde os primórdios minha vida sempre foi mergulhada em dificuldades.

Criado numa das comunidades mais violentas do Rio de Janeiro da década de 80 (Vigário Geral) sempre tive a convicção de que nunca aceitaria dialogar com o ilícito. Infelizmente o histórico de corruptibilidade de policiais ao longo dos anos dá margem a novas tentativas de corrupção por parte de criminosos e comigo não aconteceu diferente... o que foi diferente é que eu e o crime travamos uma conversa sim, uma conversa de surdos, onde cada lado parecia usar dialetos diferentes. De um lado o crime dizia com suas atitudes que iria dar ombros ao processo de pacificação na Rocinha, do outro eu dizia que o meu comando teria como “norte” a integridade e a idoneidade. Talvez, das tantas acusações feitas a mim, a que mais tenha chegado perto da verdade foi esta. Realmente não houve diálogo!!!

Não dialoguei com o tráfico de drogas, não dialoguei com o tráfico de influência, não dialoguei com a ilegalidade, não dialoguei com as propinas, não dialoguei com a prostituição infantil, não dialoguei com as lideranças comunitárias envolvidas com coisas erradas e não dialoguei com a omissão, outrossim trabalhei dedicando todo o meu cabedal técnico e todo o meu tempo na intenção de fazer com que os moradores da Rocinha tivessem paz nas trivialidades do seu cotidiano.

Ao citar as conquistas, eu poderia usar tabelas estatísticas, no entanto, como acredito que números estatísticos são manipuláveis e trazem por vezes uma falsa idéia do contexto, preferi explicitar números reais.

Em onze meses de trabalho foram:

14 pistolas apreendidas, 05 revólveres, 32 granadas, 30 explosivos, 01 espingarda, seis fuzis, 01 submetralhadora, 68 carregadores, 2891 munições, 86 pessoas presas com mandado de prisão expedido, 103 presos em flagrante delito por envolvimento no tráfico de drogas, 24 presos por lesão corporal, 54 autuações por envolvimento no “jogo do bicho”, 01 preso por corrupção ativa, 9.922 trouxinhas de maconha, 02 tabletes de maconha, 66.817 papelotes de cocaína, 03 kg de pasta base de cocaína, 28 comprimidos de ecstasy, 130 pedras de crack, 05 vidros de lança perfume, 100 litros de cheirinho da loló, 238 gramas de haxixe.

Todas estas apreensões foram possíveis pela tropa acreditar na diretriz do comando e pela minha comprovada falta de diálogo com tudo e com todos que decidiram caminhar à margem da lei. Isso é fato.

Os chamados “RANGERS” por ocasião da ocupação no Iraque todos os dias liam a seguinte pergunta:

“O que você fez hoje para conquistar mentes e corações no Iraque?”

Para a tropa que trabalhou estes onze meses na Rocinha eu incansavelmente dizia que era preciso conquistar um morador por dia. Todas as situações, com fundamento, sobre abuso que chegaram ao conhecimento do comando da UPP foram apuradas e em alguns casos os policiais saíram do trabalho de rua.

Com todos que entenderam a proposta da UPP a relação foi intensa e por assim dizer frutífera, destarte criamos vários núcleos esportivos com policiais dando aula, realizamos seminários, nos aproximamos das todas as realidades de fé, criamos o UPP em palavras (que consistia em dar uma palavra de conscientização aos moradores), criamos o pioneiro serviço de pós-atendimento com uma policial ligando e perguntando o nível de satisfação do atendimento feito pelo policial nas ocorrências, criamos o Centro de Comando de Controle, colocamos policiais capacitados para fazer a mediação de pequenos conflitos, distribuímos sistematicamente milhares de cestas com alimentos.

Quando assumi o comando da UPP cheguei tendo que resolver um impasse. Os moto taxistas para trabalhar precisavam perder dinheiro para “A”, “B” ou “C”, andavam na ilegalidade e davam aos moradores da Rocinha a oportunidade de chegar em lugares na localidade onde os meios de transporte convencionais não conseguiam chegar. Este era o contexto e minhas opções era fazer o que estava previsto em lei apreendendo assim algo em torno de 900 motos e prejudicar toda a comunidade, me omitir e deixar ao léu ou organizar. Organizei, dei a eles a oportunidade de legalizar os seus veículos e tentei intermediar o diálogo entre comunidade e mototáxi sempre que necessário.

A irredutibilidade na honestidade trouxe-me vários inimigos, assim, pessoas que lucravam com as ilegalidades trabalharam incessantemente para de uma forma ou outra conseguir minar a retidão e a seriedade de todo o processo.

Minha carreira militar me obriga e me faculta trabalhar em outras frentes e em outros lugares com outros desafios, portanto na minha saída com a consciência de que acima de qualquer coisa sou servidor público e de que minha mochila está sempre pronta para uma nova marcha, dou-lhes satisfação do que fiz.

As considerações finais ficam por conta de um conselho:

No longa metragem “O resgate do soldado Ryan” um grupamento quase que inteiro perde suas vidas para resgatar um único homem. No final, o comandante do grupamento seriamente ferido e a beira da morte fala para o soldado resgatado:

“Faça valer a pena!!!”

Muitos tombaram aqui no cumprimento do dever. Em particular, infelizmente perdi um policial sob o meu comando, tantos outros foram feridos nos confrontos e todos arriscam suas vidas 24 horas por dia por cada morador da Rocinha.

“Façam valer a pena!!!”

Sempre pessoas tentarão corromper e distorcer o potencial humano. A Rocinha não fica fora desta máxima. A escolha de fazer da Rocinha um lugar melhor para se viver e de aproveitar as oportunidades ou de sucumbir às forças do mal e do tráfico de drogas será de vocês. Por mais atrativas e tentadoras que sejam as ofertas nunca se esqueçam que sempre há uma escolha...

A pacificação não é simplesmente um programa de governo.

A pacificação é um projeto deístico, pois precisa nascer primeiro dentro de cada um de nós. Esta foi a recomendação do Cristo no seu sermão da montanha.

Fazendo isto quem sabe assim deixaremos um mundo melhor para os nossos filhos.

Obrigado a cada policial e que Deus nos abençoe.


Atenciosamente,


Major PM Edson Santos CAVEIRA 137