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terça-feira, 19 de março de 2013

CASO KISS: NÃO É UM INQUÉRITO POLICIAL NORMAL

ZERO HORA 19 de março de 2013 | N° 17376

ENTREVISTA. “Não é um inquérito policial normal”

Marcelo Arigony Um dos delegados responsáveis pela investigação


Com a sensação de que está tendo o seu trabalho observado nos quatro cantos do mundo, o delegado regional de Santa Maria, Marcelo Arigony, coordena a investigação das 241 mortes no incêndio da boate Kiss, em 27 de janeiro.

Na tarde de ontem, o delegado interrompeu o seu trabalho meia hora para conversar com Zero Hora.

Com habilidade, falou sobre pontos sensíveis da investigação, como o que envolve empresários e políticos da cidade. E não descarta a possibilidade de, no futuro, as investigações chegarem ao secretário estadual da Segurança Pública, Airton Michels, e ao comandante estadual do Corpo de Bombeiros, Guido Pedroso de Melo – assim como o prefeito santa-mariense Cezar Schirmer e seus secretários foram ouvidos.

– Em princípio, não nos parece que tenha qualquer circunstância a ser esclarecida que seja objeto desta investigação policial – diz Arigony, cuidando com as palavras ao explicar o motivo pelo qual o secretário Michels não foi ouvido no inquérito.

A seguir, uma síntese da conversa mantida com o delegado responsável pelas investigações da maior tragédia da história gaúcha:

Zero Hora – Esses sucessivos atrasos na conclusão do inquérito, a que se devem?

Marcelo Arigony – Não há sucessivos atrasos. A gente teve casos, como nos Estados Unidos, que levaram nove meses para investigar. Na Argentina, tem processos até hoje. Nós vimos que foi um caso de dimensões planetárias. São 241 mortos, talvez 600 feridos. Nós temos 51 dias de investigação.

ZH – O inquérito será concluído até sexta?

Arigony – Nós estamos fazendo força para concluir até o final de semana.

ZH – O fim do inquérito significa que a investigação acaba?

Arigony – Não necessariamente. Existem questões periféricas, como a da Hidramix, empresa que executou obra prevista no Plano de Prevenção e Combate a Incêndio (PPCI da boate Kiss e que é de propriedade de um bombeiro de Santa Maria).

ZH – O fato do coordenador do Funrebom, o empresário Luiz Fernando Pacheco, sair do comando, neste momento, é encarado como pressão?

Arigony – Não. Eu considero como imaturo e descabida as manifestações dele. Ele não conhece as provas dos autos. Não conhece o conteúdo das declarações que foram colhidas e não conhece as nossas linhas investigatórias. Como a gente disse desde o início, todas as circunstâncias do inquérito serão esclarecidas.

ZH – O comandante-geral do Corpo de Bombeiros, Guido Pedroso de Melo, pode ser ouvido no inquérito?

Arigony – Acho temerário falar disso neste momento. Neste momento, não há vinculação direta com o fato. Mas não concluímos o inquérito. Então, a gente não descarta nada.

ZH – E isso também pode levá-lo a ouvir o secretário da Segurança Airton Michels?

Arigony – Isso tudo é especulação, que não nos cabe neste momento do inquérito policial. O inquérito não foi concluído. Em princípio, não há ligação nenhuma com o fato investigado. E como disse, em princípio, não nos parece que tenha qualquer circunstância a ser esclarecida que seja objeto desta investigação policial. Nosso compromisso é o de esclarecer todas as circunstâncias.

ZH – O senhor foi pressionado?

Arigony – Em nenhum momento. Nós estamos trabalhando em cinco delegados de polícia, mais de 20 agentes policiais.Toda a sociedade está olhando com uma lupa para este inquérito. Nós estamos fazendo a coisa da maneira mais imparcial e isenta que nós podemos. O que nos pressiona um pouco é a questão do tempo. Não é um inquérito policial normal. Nós estamos com 51 dias da investigação policial e somos pressionados pela comunidade, pela imprensa, para apresentar as conclusões.

CARLOS WAGNER