ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sábado, 11 de maio de 2013

POLICIAL PRESO NO PORTA-MALAS

ZERO HORA 12 de maio de 2013 | N° 17430


SOLDADOS HUMILHADOS. Preso no porta-malas




Reagir poderia significar uma sentença de morte para o soldado da Brigada Militar de Sarandi, de 26 anos, na manhã de segunda-feira. Não reagir, porém, era ter de passar por cima da própria função: proteger os moradores.

Quando o soldado viu uma submetralhadora apontada para a sua cabeça, na manhã da última segunda-feira, teve de engolir o orgulho.

Filho de um sargento com 25 anos de Brigada Militar, o policial escolheu o ofício há sete anos, por amor à profissão. Gostava de estar na equipe de patrulhamento ostensivo, mas, em função do trauma, voltar para as ruas agora exigirá um esforço adicional à coragem: superação.

Na manhã de segunda-feira, ele dirigia uma viatura da corporação em um patrulhamento de rotina pelo centro do município, acompanhado por um colega. Era por volta de 11h30min, quando foram abordados por cinco homens em um Tiida, com vidros escuros. Segundo o soldado, os bandidos, em maior número, tinham armamento mais potente. Enquanto portavam fuzil e submetralhadora, os soldados tinham apenas pistolas.

– Com certeza não estaríamos vivos se reagíssemos. Eles mandaram a gente sair com os braços para cima – relata, preferindo não ter o nome divulgado.

Eles foram desarmados pelos bandidos e usados de escudo para invadir a agência do Banco do Brasil da cidade, próxima ao local onde foram abordados. Na fuga, os assaltantes resolveram colocá-los no porta-malas do Tiida, deixá-lo aberto, e partir em alta velocidade.

– Não entendo porque não nos deixaram ali, estávamos desarmados. Foi o pior momento.

Por meio do teto solar, um dos bandidos atirava em direção aos policiais que os seguiam, iniciando um tiroteio. No meio do fogo cruzado, o soldado refém acabou sendo ferido por um dos tiros, nas costas.

– A primeira reação que tive foi verificar se ainda sentia minhas pernas – relata o policial.

Ele foi socorrido pelo pai, que acompanhou a perseguição com o próprio carro.

– Pai, não deixe eu ficar paraplégico – ouviu o sargento do filho o durante o deslocamento ao hospital mais próximo.

Na casa de saúde do município, o soldado mostra confiança na plena recuperação, mas as lembranças do dia em que foi refém ainda permanecerão como feridas abertas.

– Temos que defender o cidadão com as nossas vidas, mas não está nada fácil.

FERNANDA DA COSTA




“Vai arriscar morrer com esse salário?”

Eram 12h30min quando uma Space Fox emparelhou com o Prisma da BM. Os ocupantes baixaram os vidros rapidamente e abriram fogo com espingardas calibre 12. O policial chegou a revidar, mas acabou rendido.

Na sequência, os assaltantes retiraram o colete e a pistola dele e dos outros dois colegas. Um deles foi deixado para trás porque estava sangrando – um tiro, sem gravidade, havia atingido o pescoço. Em frente ao Banco do Brasil, o soldado foi algemado – por cerca de 15 minutos, para surpresa da população, enquanto o bando levava o outro policial até o Banrisul. O grupo ainda roubou o dinheiro do Sicredi. O soldado ainda sofreu com deboches, ameaças e agressões dos criminosos.

– Eles bateram muito na gente. Diziam: “vai arriscar morrer com esse salário de fome?” – lembra o policial.

A exposição ao risco reforçou a vontade de mudar de carreira. Concluindo faculdade de Ciências Contábeis, ele pretende prestar concurso para a Polícia Federal. Desde que voltou ao trabalho, após 30 dias de afastamento por conta de um coágulo na cabeça, o rapaz fica em alerta sempre que vê um carro com placas de fora. O posto da BM fica aberto somente 12 horas. Os policiais evitam ficar sozinhos, principalmente no intervalo de almoço, quando os bancos são mais visados. Como são apenas três, a solidão acaba sendo inevitável em alguns momentos. A preocupação também.

CONTRAPONTOS

O que diz o titular da Delegacia de Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil, Joel Wagner - Como foram vários roubos nesses moldes, acaba despertando a vontade de praticar esse tipo de delito em outras pessoas, que acabam formando um bando, normalmente com armas bastante pesadas, e praticam o mesmo tipo de crime. A maioria dos envolvidos não tinha antecedentes por roubo a bancos, praticavam outros tipos de roubos patrimoniais, como residências, postos de combustíveis e propriedades rurais.

O que diz o comandante–geral da Brigada Militar, coronel Fábio Duarte Fernandes - A cultura vigente é de que viatura e efetivo resolve o problema da segurança, mas não é só isso. Tecnologia e gestão precisam caminhar juntos. A BM foi participante e resolutiva, cercando as regiões atacadas e realizando prisões.