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terça-feira, 28 de outubro de 2014

OMISSÃO INVESTIGADA

ZH 28 de outubro de 2014 | N° 17966

EDUARDO TORRES


PMs suspeitos de abandonar jovem com deficiência mental


“Não diz coisa com coisa, não fornece um endereço fixo”. Dessa forma, a jovem de 19 anos, com deficiência mental, desaparecida na tarde de quarta-feira no Centro de Porto Alegre, foi descrita por dois policiais militares do 19º BPM na ocorrência registrada na 21ª DP. Eles a haviam encontrado andando desnorteada pelo campus Agronomia da UFRGS no início da noite – três horas após ter desaparecido de casa. Pouco tempo depois, a liberaram na Avenida João Pessoa, para que voltasse para sua residência de ônibus, sozinha. Ela só foi encontrada após três dias, no Hospital Conceição, vítima de violência sexual.

Ontem, os dois PMs foram ouvidos pela 5ª Delegacia de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP) e deram outra versão. Alegaram não terem seguido a orientação dada pelo plantonista da 21ª DP, para que entregassem a jovem no plantão do Departamento de Homicídios, no Palácio da Polícia, porque não haviam percebido deficiência nela.

– Não tenho dúvida de que o crime poderia ter sido evitado se não houvesse omissão dos agentes. É impossível não perceber que a vítima tem deficiência mental. Eles estavam com ela sob sua guarda. É possível que sejam enquadrados até por estupro – disse a delegada Jeiselaure Souza.

O inquérito deverá ser repassado à Delegacia da Mulher, que vai apurar o estupro de incapaz. O caso também deve chegar às corregedorias da Polícia Civil e da Brigada Militar, que apuram a conduta dos agentes públicos.

Os depoimentos dos PMs e um relatório do caso serão entregues ao comando do 19º BPM, que já instaurou investigação própria. A delegada avalia ainda a possibilidade de ouvir o plantonista da 21ª DP. Situação mais grave, no entanto, é considerada a de um plantonista da 14ª DP. Segundo os familiares da jovem, ele teria se negado a registrar a ocorrência do desaparecimento, alegando que o caso não havia acontecido naquela área e era o seu horário de janta. Só às 22h50min, quando a jovem já havia sido encontrada e abandonada, a família conseguiu fazer o registro.

– Estamos averiguando essa situação. Nenhuma delegacia pode se furtar a registrar uma ocorrência – informou a delegada.

O caso só chegou ao conhecimento da delegacia especializada na manhã de sexta. Foi quando, finalmente, um alerta foi dado a toda a Polícia Civil.

O diretor regional de Porto Alegre, delegado Cléber Ferreira, promete apurar as atuações dos plantonistas envolvidos.

A polícia tenta esclarecer como a jovem chegou ao Hospital Conceição na tarde de sábado. Em depoimento, ela não soube dizer como conseguiu ir até o local e pedir socorro. A suspeita é de que alguém a tenha deixado lá. Durante os três dias em que perambulou pelas ruas, ela teria caminhado entre a Vila Planetário e o Centro. Dormiu pelas ruas e não se alimentou. Conforme os peritos do Departamento Médico Legal, é provável que tenha sido abusada mais de uma vez.


ENTREVISTA

“Quem tinha de proteger não protegeu”

Na manhã de ontem, a faxineira de 47 anos, mãe da jovem estuprada, cruzou com um dos PMs nos corredores da 5ª DHPP. Ouviu dele um pedido de desculpas. Ela conversou com a reportagem do Diário Gaúcho.

O soldado lhe pediu desculpas. A senhora aceita?

Eu aceito, porque ele é um trabalhador. Mas errou, e eu vou até as últimas consequências para ver a justiça feita. Não quero que nenhuma outra mãe sinta o que eu senti, como se tivessem arrancado o meu coração, por negligência do Estado.

Que sentimento fica depois deste trauma?

Nunca deixamos ela andar sozinha na rua, ela sumiu por distração da avó de 85 anos. Mas o que me indigna é que ela poderia ter ficado bem, se quem deveria cuidar dela na nossa ausência tivesse feito a sua parte. Eles não cuidaram da minha filha.