ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

SILÊNCIO NA INVESTIGAÇÃO DA MORTE DOS JOVENS DA FIORINO

ZERO HORA, O PIONEIRO, 16/04/2014 | 18h04

Silêncio de autoridades se mantém após um mês de investigação do suposto confronto de tripulantes de Fiorino com policiais, em Bento Gonçalves. O inquérito não tem prazo para ser remetido à Justiça, segundo o delegado regional da Polícia Civil



Fiorino foi alvejada por policiais militares em Bento GonçalvesFoto: Não se Aplica / Divulgação

Há um mês, o silêncio encobre o andamento de um dos casos mais polêmicos deste ano na Serra gaúcha. A morte do estudante Anderson Styburski, 16 anos, e do servente de pedreiro Danúbio Cruz da Costa, 20, em um suposto confronto com a Brigada Militar (BM), é cercada por dúvidas e incertezas que autoridades da área da segurança pública se negam em responder.

As mortes ocorreram na madrugada de 16 de março, em Bento Gonçalves. Os rapazes estavam no bagageiro de uma Fiorino dirigida por Tiago de Paula, 18, que levava como caroneiro um jovem de 15 anos. Tiago não parou em uma blitz promovida pelos soldados Edegar Júnior Oliveira Rodrigues, 29, e Neilor dos Santos Lopes, 23.

Segundo os soldados, os jovens efetuaram dois disparos de dentro da cabine com um revólver Rossi, provocando a resposta dos PMs com vários disparos. Anderson e Danúbio foram alvejados e morreram na hora. Os sobreviventes contestam a versão dos policiais e defendem que estavam desarmados quando houve a tentativa de abordagem. 

Conforme o advogado dos policiais, Adroaldo Dal Mass, os clientes não se manifestarão na imprensa sobre o caso. Eles permanecerão afastados do policiamento ostensivo até o término do inquérito policial militar, enquanto cumprem licença-saúde. 


Veja o que dizem as autoridades:

:: Delegado regional da Polícia Civil, Paulo Roberto da Rosa: — Apesar de passados 30 dias as investigações continuam, sem prazo para terminar. Iremos apurar com todo rigor e isenção o que de fato ocorreu naquela noite. Neste momento, não temos condições de adiantar o andamento do inquérito pois ainda dependemos de uma série de perícias e exames. Ou seja, dependemos de uma série de fatores que influenciam diretamente no andamento das investigações e decisões a serem tomadas. É um caso complexo em que não podemos correr o risco de tomar decisões prematuras. 

:: O delegado que investiga o caso, Álvaro Becker, também foi procurado pela reportagem e disse que ainda não se manifestaria por questões éticas.

:: A assessoria de imprensa do Instituto Geral de Perícias (IGP) divulgou nota, onde relata que:  — A perícia está realizando o seu trabalho de elaboração e produção do laudo, que devido à complexidade terá esse prazo estendido. Informações sobre o caso apenas o Delegado como presidente do inquérito pode divulgar.

:: Promotor de Justiça Eduardo Lumertz:  — O Ministério Público aguarda a remessa, dentro do prazo legal, do respectivo Inquérito Policial aberto pela Polícia Civil. No caso de eventual necessidade de prorrogação do prazo para conclusão das investigações, a Promotoria aguardará que a Autoridade Policial formule tal pedido à 1ª Vara Criminal de Bento Gonçalves. Ocorrendo tal pleito, o Ministério Público, levando em consideração as circunstâncias concretas, irá se manifestar a respeito da necessidade (ou não) de se estender a atividade investigativa policial. 

:: O corregedor-geral interino da Brigada Militar, tenente-coronel Jairo de Oliveira Martins:  — O inquérito policial militar permanece sob investigação na medida que aguarda a remessa dos laudos periciais por parte do IGP. O prazo para a conclusão dele é 16 de maio. Mas, caso os laudos não sejam concluídos até a data, o inquérito é remetido ao comando e, depois, retorna ao oficial competente para que aguarde os exames para serem anexados. Enquanto isso, a investigação segue sob sigilo.


23/03/2014 | 12h01

Familiares de jovens mortos pela BM de Bento Gonçalves protestam após missa de sétimo dia, neste domingo. Cerca de 150 pessoas seguiram com cartazes até a área verde, onde os amigos se reuniram pela última vez



A mobilização foi encerrada com uma salva de palmas, por volta das 11hFoto: Rodrigo Chernhak, Agência RBS


Rodrigo Chernhak, especial


O silêncio foi a forma encontrada por familiares e amigos de Anderson Styburski, 16 anos, e Danúbio Cruz da Costa, 20, para homenageá-los durante caminhada na manhã deste domingo. Eles foram mortos no último dia 16, durante perseguição policial, após saírem de uma janta.

A mobilização deste domingo começou às 10h30min e partiu da Igreja Nossa Senhora de Fátima, no bairro Santa Helena, onde ocorreu a missa de sétimo dia de falecimento dos jovens.

O ato também detinha um tom de protesto nos cartazes carregados por cerca de 150 pessoas que seguiram até a área verde do bairro, onde os jovens se reuniram pela última vez com amigos. Familiares de Anderson vestiam camisetas com a foto do garoto.

À frente da multidão, uma faixa preta simbolizava o luto e algumas cartolinas traziam frases como: "Hoje, eu gritei pro céu só para você saber que todos estão lutando por vocês" e #justiça. Cadê a justiça? Em que mundo estamos?". Ao pararem na praça do bairro, um carro de som tocou a música Paz e Amor, da dupla sertaneja Jorge e Matheus, uma das preferidas de Anderson. Neste momento, familiares e amigos não conteram a emoção.

— É muito triste o que aconteceu. É uma dor que só quem passa, sabe como é. O que pedimos é justiça. Queremos eles na cadeia, não estão preparados para agir em uma situação daquelas. Eles podem fazer qualquer serviço, menos esse. Pagamos impostos para eles nos matarem depois? — desabafa o pai de Anderson, Adilson Styburski.

O irmão de Danúbio, Douglas Cruz da Costa, também ficou comovido com a mobilização e destaca:

— A revolta que fica é pelo modo como os policiais agiram, pela ação deles. Se eles fossem bandidos, não reuniriam tanta gente assim. Bandido não reúne família.

A mobilização foi encerrada com uma salva de palmas, por volta das 11h. O prefeito de Bento Gonçalves, Guilherme Pasin (PP) também acompanhou o ato.