ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

EU TENHO DIREITO



ZERO HORA 04 de abril de 2014 | N° 17753


DAVID COIMBRA



Eu tenho direito



Li que a presidente Dilma quer rigor de pedra nas punições de crimes cometidos contra a mulher. Isso motivado por aquela pesquisa que fez o país estremecer de santa indignação: a maioria dos brasileiros (e das brasileiras) acha que a mulher merece sofrer abuso sexual se estiver usando roupas provocantes.

Dilma está certa no específico. Só no específico. Porque essa forma dos brasileiros de ver a mulher não é a forma dos brasileiros de ver a mulher; é a forma dos brasileiros de ver a vida.

O brasileiro acredita que tem direito de bolinar uma mulher de minissaia porque ele tem uma consciência altamente desenvolvida e maleável a respeito dos seus direitos. Ele foi treinado para isso. “Lute por seus direitos”, dizem para o brasileiro todos os dias. Ensinaram ao brasileiro que, lutando por seus direitos, ele se tornará um cidadão. Então, o brasileiro é um tigre para defender os SEUS direitos, mas em nenhum momento passa-lhe pela cabeça de que existe uma remota, uma ínfima possibilidade de que ele também tenha deveres.

O grevista tem direito a fazer piquete, o ciclista tem direito a mais espaço no trânsito, o empresário tem direito a uma política fiscal justa, o desempregado tem direito a uma vida melhor. Todos eles têm razão. Tendo razão, eles estendem seus direitos até esbarrar nos direitos dos outros. O piqueteiro espanca o fura-greve, o ciclista fecha a avenida, o empresário sonega imposto, o desempregado assalta e vende droga.

Que diferença existe entre todos esses, e muitos mais, para o homem que tem direito a uma vida sexual ativa e estende seu direito para atacar uma mulher que ele deseja, mas não possui?

O brasileiro é o povo do direito estendido e do dever nenhum.

Eu quero uma vida melhor, eu quero um salário maior, eu quero pagar menos impostos, eu quero andar de bicicleta, eu quero aquela mulher. Querer é poder. Lute pelo seu sonho. Lute por seus direitos. Seja feliz!

Os pais dos brasileirinhos repetem sempre: “Eu quero que meu filho seja feliz. O importante é que ele seja feliz”. Kant não concordaria. Kant dizia que o importante não é ser feliz, é merecer a felicidade. Na falta de um Kant tropical, como o brasileiro vai compreender que a extensão dos seus direitos até o rompimento com seus deveres é, em si, um mal? Dilma deu a resposta: com punição. Não punição severa, não punição inclemente, não punição vingativa, nem mesmo punição intolerante: punição justa.

Se você está na Inglaterra ou nos Estados Unidos e disser algo ofensivo a uma mulher de minissaia, ela chamará um policial e o policial poderá até prendê-lo. Se você resistir, o policial o derrubará no chão, pisará em seu pescoço, o algemará com as mãos às costas e o levará preso. Na cadeia, você será tratado talvez com dureza e certamente de acordo com a lei.

Aqui, o policial iria para o YouTube. “Fuck polícia”, alguém picharia na parede da delegacia. Aqui, um black bloc cospe no policial. Mas, aqui, se o policial levar black bloc infrator para a cadeia, pode acontecer com ele o que aconteceu com Amarildo. Ele pode ser seviciado, ser espancado e nem voltar para casa.

A lei. O Estado tem que fazer cumprir a lei. E tem que agir estritamente dentro da lei. Um Estado atento, vigilante, mas justo. Um Estado que protege os direitos e faz cumprir os deveres. Simples de entender. Mas, como se vê, complicado de fazer.