ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

POLICIAL NEGA LIGAÇÃO COM TRAFICANTE



ZERO HORA 07 de janeiro de 2015 | N° 18035


ADRIANA IRION HUMBERTO TREZZI


TIROTEIO NO LITORAL


Assessor de ex-secretário da Segurança prestou depoimento para esclarecer supostas relações com criminoso assassinado Tramandaí e assegurou que foi até o local para ver familiar que estava ferido, versão diferente da informada por testemunhas

“Não vi, não sei do que se trata” foram as expressões usadas pelo policial civil Nilson Aneli para definir o que ele sabe do traficante Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, morto com um tiro de fuzil por uma quadrilha rival no domingo, em Tramandaí.

Em pouco mais de uma hora, Aneli prestou o segundo depoimento a respeito da sua presença na casa do traficante, no horário em que Xandi foi executado.

Testemunhos de comparsas do traficante indicam que Xandi estava acompanhado do comissário Aneli, da Polícia Civil, quando foi assassinado. Veterano, com 33 anos de carreira e professor na Academia da Polícia Civil, Aneli era lotado, até a semana passada, no gabinete do então secretário da Segurança Pública do Estado, Airton Michels.

Ligado à facção criminosa Os Manos, Xandi, 35 anos, era considerado um dos “patrões” do tráfico na Região Metropolitana. Controlava o condomínio residencial Princesa Isabel, distante duas quadras do Palácio da Polícia Civil, na Capital, e também bocas de fumo em Canoas. Ele teria sido jurado de morte por traficantes rivais da Vila Tamanca e do Beco dos Cafunchos, no bairro Agronomia, na zona leste da Capital. Eles teriam oferecido R$ 200 mil para quem o matasse.

COMISSÁRIO SERIA SEGURANÇA, DIZ DEPOENTE

O assassinato ocorreu quando quatro homens em um Corsa estacionaram em frente à casa alugada pelo criminoso em Tramandaí e dispararam rajadas de fuzil, acertando o traficante na cabeça, que morreu na hora. Xandi tinha condenações por tráfico e homicídio.

Aneli negou qualquer relação com Xandi em dois testemunhos prestados sobre o episódio. O primeiro foi domingo, na delegacia de Tramandaí, logo após o crime. Aneli foi identificado por testemunhas como um dos homens que saiu atirando em defesa de Xandi. Ontem, o policial negou essa relação em depoimento na Corregedoria da Polícia Civil, em Porto Alegre.

Na Corregedoria, Aneli manteve a versão dada domingo e que ele repetiu ontem para ZH, logo após prestar depoimento.

– Eu estava em Tramandaí e fui avisado de que um sobrinho tinha sido baleado, na casa do traficante Xandi. Só fui prestar ajuda ao meu familiar, que foi baleado e corre risco de morte.

A versão apresentada pelo policial civil difere de três depoimentos prestados em Tramandaí por pessoas que se encontravam na casa alugada por Xandi.

Três homens que trabalhavam na produtora de funk do traficante, a Nível A (especializada em bailes e lançamento de artistas do gênero) dizem que Aneli era segurança de Xandi. Teria sido contratado não apenas para dar proteção em festas, mas também defesa pessoal ao traficante.



Casa tinha armas ilegais e festas sem fim


Na residência alugada desde o Natal pelo traficante Xandi em Tramandaí, onde ele foi morto no domingo passado, a Polícia Civil encontrou drogas, cinco pistolas e farta munição. Isso determinou a prisão de oito dos 14 ocupantes da casa. Um dos depoentes diz ter ouvido falar que algumas armas eram do policial Nilson Aneli, que estaria no local como segurança.

As pistolas – três Glock 9mm contrabandeadas e com numeração em sequência e duas .380, uma delas com numeração raspada – serão periciadas. A polícia apreendeu ainda na casa um Land Rover Evoque, um Cerato, uma Captiva e uma van Mercedes-Benz. As festas na casa, alugada até o dia 6 por R$ 10 mil, eram diuturnas.

Em depoimentos de vizinhos, também há relatos que Aneli estava na casa na hora do tiroteio. Pesa nessa tese uma informação coletada pela Corregedoria da Polícia: a de que o comissário costuma prestar “bicos” (serviços fora da carreira policial) como segurança de empresários da noite e de jogadores de futebol, com outros dois policiais civis.

O policial, que havia sido cedido para trabalhar no Ministério Público (a ideia era aproveitá-lo em um grupo de combate a crime organizado), foi liberado após os depoimentos, mas teve anulada sua cedência e terá de voltar à Polícia Civil, em cargo ainda não definido.



Ex-secretário acredita em “inocência” de comissário






BRUNA VARGAS 


AIRTON MICHELS, que deixou a pasta ontem, disse que seu assessor na Segurança, suspeito de ter ligação com traficante, pode ter sido ingênuo

Depois de transferir o cargo de secretário de Segurança do Estado para Wantuir Jacini, na manhã de ontem, o ex-titular da pasta, Airton Michels, disse acreditar na inocência do comissário Nilson Aneli, investigado por suspeita de ligação com o traficante Xandi, executado no último domingo em Tramandaí.

– Conheço ele (Aneli) há 20 anos, por isso o trouxe para chefiar a segurança. O tenho como um profissional honesto, sério e competente (...) Ele pode ter sido ingênuo, precipitado, mas não acredito de forma alguma que tenha sido desonesto – afirmou.

O ex-secretário disse ainda considerar “quase improvável” o envolvimento do comissário com o tráfico de drogas e garantiu não se arrepender da contratação do comissário.

– Não tenho nenhum arrependimento de tê-lo trazido comigo – destacou Michels, que disse ter conhecimento de que o funcionário buscava recursos trabalhando com segurança privada.

Segundo o ex-titular da pasta, que teria conversado com Aneli por telefone após o crime no último domingo, o comissário prometeu falar a verdade sobre o caso à polícia.

– Ele vai ter de dar uma explicação. Disse-me que vai falar a verdade, mas também me pediu tranquilidade – relatou.

A Corregedoria da Polícia Civil abriu procedimento para verificar se Aneli trabalhava fazendo segurança para Xandi, considerado um dos maiores traficantes da Região Metropolitana. No Diário Oficial da última segunda-feira, Aneli foi elogiado por Michels em uma portaria de louvor por serviços prestados.



QUEM SÃO
NILSON ANELI
O comissário ingressou na Polícia Civil em março de 1982. Formado em Direito na PUCRS, foi professor da Universidade de Santa Cruz (entre 2006 e 2007). Na polícia, ocupou diferentes cargos, como professor da Academia de Polícia Civil (Acadepol). Foi assessor especial de Airton Michels, secretário da Segurança do governo Tarso Genro.
XANDI
Alexandre Goulart Madeira, o Xandi, 35 anos, ganhou projeção no mundo do crime em 2005, após a morte do assaltante Dilonei Melara. Assassinado em circunstâncias não esclarecidas, Melara deixou uma rede criminosa que se expandiu para o tráfico de drogas, beneficiando ex-aliados e amigos. Xandi se tornou um dos líderes do tráfico na Região Metropolitana.