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terça-feira, 9 de setembro de 2014

FALHAS NA COLETA DE MATERIAIS PREJUDICA CONCLUSÕES PERICIAIS

ZH 08/09/2014 | 21h25


Laudos da morte de Bernardo apontam falhas em coleta de materiais e são inconclusivos
IGP afirmou que materiais deveriam ter sido enviados imediatamente à perícia e que as conclusões foram prejudicadas pela demora e pelas condições erradas de armazenamento das amostras

por Maurício Tonetto, de Três Passos


Peritos estiveram no local do crime cerca de 10 dias depois que o corpo foi retirado da áreaFoto: Carlos Macedo / Agencia RBS


Cinco laudos oficiais sobre a morte do menino Bernardo Uglione Boldrini, obtidos nesta segunda-feira por Zero Hora, indicam que falhas na coleta e no armazenamento de materiais levantados na cena do crime, em Frederico Westphalen, impediram conclusões definitivas do Instituto-Geral de Perícias (IGP) sobre detalhes importantes no assassinato do garoto, ocorrido em abril deste ano.

Foram analisados pelo instituto fragmentos do pulmão e da traqueia de Bernardo, as roupas que ele usava, a terra da cova onde foi enterrado, as pás utilizadas para cavá-la, o saco ráfia em que o corpo foi depositado e exames toxicológicos. Em quatro deles, houve demora e falta de cuidados essenciais no manejo das provas por parte da Polícia Civil, segundo o IGP.

O instituto sublinha, nos laudos, que todo o material apreendido deveria ter sido imediatamente enviado para análise especializada, e não vários dias depois, como ocorreu. No exame dos fragmentos de pulmão e traqueia, não foi possível encontrar vestígios de terra. Porém, como o estudo do saco ráfia foi prejudicado, não se pode afirmar definitivamente se o garoto foi enterrado sem vida.


O diretor-geral substituto do IGP, Paulo Leonel Fioravante Fernandes, explicou que novas perícias podem ser solicitadas pelas partes no decorrer do processo. Segundo ele, quando o profissional assinala que houve dificuldades para chegar à conclusão do laudo devido a problemas no armazenamento das provas ou outras falhas técnicas, o trabalho costuma ficar inconclusivo. Por isso, de acordo com ele, é importante que as coletas e o armazenamento sejam feitos dentro de critérios técnicos.

Zero Hora procurou a delegada Caroline Bamberg, que conduziu as investigações e o inquérito policial, mas não obteve retorno.

Veja o que mostra cada um dos laudos:

Roupas (recolhidas em 14 de abril e enviadas para análise em 25 de abril)

"Não foram observadas manchas ou resíduos dignos de nota, além de sujidades típicas do uso no material avaliado. Contudo, dada à falta de isolamento de objetos, à sua manipulação prévia e seu envio sob condições desconhecidas, ao seu acondicionamento inadequado em embalagem comum e não individual e à remoção de itens, não descartamos e possibilidade de que algum vestígio que estivesse presente originalmente nos itens avaliados, porém, tenha se perdido até sua chegada a este departamento."

Terra (recolhida em 14 de abril e mandada ao IGP em 25 de abril)

"O pH observado não foi coerente com aquele esperado para o uso abundante de substâncias ácidas ou básicas (soda cáustica). Contudo, o acondicionamento e o encaminhamento de materiais, sobretudo biológicos, contendo vestígios para análise pericial devem ser feitos imediatamente após sua coleta, por pessoa identificada e sob refrigeração, sob pena da perda/alteração dos vestígios. No caso em tela, como o material foi mantido por cerca de 11 dias, após seu encontro, em condições desconhecidas e encaminhado posteriormente sem refrigeração, não excluímos a possibilidade de que o pH na ocasião fosse outro."

Pás (achadas em 15 de abril e levadas ao IGP em 25 de abril)

"Aos peritos foram apresentados, sem acondicionamento, os seguintes materiais: uma pá metálica e uma escavadeira de metal. Obs.: Em uma das faces metálicas de cada peça - objetos do exame pericial - haviam sido afixadas, inadvertidamente, etiquetas manuscritas com o número do inquérito e do ofício. (...) Não foram observados resíduos de terra e outras substâncias ou mesmo sinais de corrosão provocada pela adição de ácidos ou bases no material periciado. Contudo, o correto acondicionamento dos objetos e seu encaminhamento para análise pericial devem ser feitos imediatamente após sua coleta e por pessoa identificada, para garantir o isolamento dos mesmos. No caso em tela, como o material foi mantido por cerca de 10 dias, após seu encontro, em condições desconhecidas, e encaminhado posteriormente sem qualquer acondicionamento, não excluímos a possibilidade de que houvesse resíduos nos mesmos, mas que por erros de procedimento, os mesmos tenham se perdido."

Saco ráfia (achado no dia 16 de abril e entregue ao IGP em 25 de abril)

"O pH esperado não foi coerente com aquele esperado para uso abundante de substâncias ácidas ou básicas (soda cáustica). Contudo, o acondicionamento e o encaminhamento de materiais contendo vestígios para análise pericial devem ser feitos imediatamente após sua coleta, sob pena de perda/alteração dos vestígios. No caso em tela, como o material foi mantido por cerca de 11 dias, após seu encontro, em condições desconhecidas e encaminhado posteriormente sem refrigeração, não excluímos a possibilidade de que o pH na ocasião fosse outro."

Pulmão e traqueia

"Em relação ao material encaminhado à perícia — dois frascos de vidro transparente e incolor contendo fragmentos de pulmão e traqueia — para a verificação de possíveis detritos minerais similares a terra, informamos que o material recebido foi submetido a exame físico-visual e análise óptica, não sendo possível constatar a presença de substâncias diversas ou compatíveis com terra no material biológico recebido."
*Zero Hora


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Mais uma caso que detona os argumentos daqueles que queriam a separação do segmento pericial da polícia investigativa, quebrando o ciclo policial. No Brasil surreal, em nome do corporativismo, os legisladores e governantes permissivos prejudicam a eficiência da justiça criminal