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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

BRIGADA ACUSADA DE EXECUTAÇÃO. POLICIAIS GARANTEM ENFRENTAMENTO A TIROS



23/12/2014 | 21h52


Renato Gava


Moradores acusam Brigada de executar jovem em Porto Alegre. PMs garantem que rapaz de 18 anos estava armado e os atacou primeiro. Polícia Civil investiga.



Na manhã de ontem, BM prendeu cinco homens com armas e munições Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS




Comoção, dor e muita revolta. Moradores da Vila Cruzeiro, na Zona Sul de Porto Algre, na terça, pediam Justiça após a morte de Bruno Queiroz Galvão Campos, 18 anos, alvejado ao menos três vezes por PMs do 1º BPM, na tarde de segunda-feira.
Os policiais disseram que o rapaz atirou contra eles, por isso revidaram. Um revólver calibre 38, com numeração raspada, foi apresentado na 2ª DPPA. Pelo menos dez moradores do Beco 5, local onde ele tombou, asseguram que houve uma execução.

– Com ele, a Brigada não apreendeu arma alguma. Atiraram nas pernas dele, eu escutei os tiros e olhei pela janela. O rapaz caiu e pediu para não ser morto. Veio então um policial e deu mais dois tiros nele, no pescoço e no peito. Uma vergonha – diz uma moradora de 53 anos.


– Mataram o guri à sangue-frio. Agora, vão inventar que ele havia atirado, mas pedimos para mostrarem a arma do rapaz e eles desconversaram. Podem me chamar, sou testemunha, falo para quem quiser ouvir: foi execução – relatou um morador de 38 anos, que identificou-se apenas por Volnei.

Outras oito pessoas ouvidas pelo Diário Gaúcho contaram a mesma versão. Nenhuma delas disse conhecer a vítima, que morava a cerca de 800m dali, em outro beco.

PMs atenderam a um chamado

Conforme registro do 1º BPM, os PMs foram ao local após denúncia anônima de que pessoas estavam circulando armadas pela região.
– Ele era um traficante, morreu em confronto com a polícia. O revólver foi apresentado na delegacia. Ele não era conhecido da polícia porque era novo – resumiu o capitão Munhoz, do 1º BPM.

Responsável pela investigação, a titular da 6ª DHPP, delegada Andrea Mattos, quer ouvir moradores, PMs e a família da vítima. A arma do PM (apenas um teria atirado) e a que estaria com a vítima foram apreendidas e serão periciadas.
– Os policiais apresentaram munições que teriam sido deflagradas pela vítima. Vamos investigar, o inquérito está só começando – continuou.

Em depoimento, os PMs contaram que apenas um deles fez os disparos em Bruno.


Rapaz já havia passado por tratamento

Bruno foi enterrado no final da tarde de terça no Cemitério Jardim da Paz, na Lomba do Pinheiro. O pai, de 38 anos, caminhoneiro, e a mãe, 34 anos, dona de casa, estavam abalados e não quiseram falar.
A tia do jovem, de 33 anos, também moradora da Vila Cruzeiro, contou que o rapaz era calmo, mas envolveu-se com drogas poucos meses atrás. E, para sustentar o vício, vendia pequenas quantidades de droga.

– A família o internou numa clínica por algum tempo, ficaram quase loucos. A família toda trabalha, ninguém é do crime. De qualquer forma, nada justifica os policiais fuzilarem ele desarmado – avalia.

Logo após a morte de Bruno, na segunda, dezenas de moradores fizeram um protesto. Na esquina da Avenida Orfanotrófio com a Rua Dona Otília, pararam um ônibus. Mandaram todos descerem e atearam fogo no veículo.
Pelo menos seis viaturas da BM acorreram. Balas de borracha e bombas de efeito moral foram usadas. A confusão só terminou por volta das 2h de terça-feira.
Na sexta, a 20ª DP identificou dois suspeitos do ataque, mas o fato de que estariam encapuzados dificultou o reconhecimento.

Em depoimento, o motorista do ônibus disse que nem o dinheiro do caixa nem valores dos passageiros foram levados.
– Quem deu início ao ataque foram homens armados, depois, a população se juntou. A primeira coisa é cortar esse tipo de ação pela raiz para não virar moda – disse o titular da 20ª DP, delegado Luís Fernando Martins Oliveira.

Indignação registrada em vídeo

Uma mulher de 34 anos, com seu celular, filmou parte do que aconteceu. Nas imagens, os PMs, com ajuda de um morador, carregam o rapaz. Ele é colocado em um Palio do 1º BPM e levado ao HPS, onde morreu. O vídeo, enviado à Polícia Civil, registra a indignação dos moradores da Cruzeiro, quando PMs carregaram Bruno pelas pernas e braços. Muitos deles gritam para os policiais: “Cadê a arma do guri, cadê a arma do guri”.
Informações da perícia indicam que Bruno teria sido atingido por cinco disparos, nas nádegas e no peito. Segundo a comandante do 1º BPM, tenente-coronel Cristine Rasbold, foi encontrado com ele um revólver calibre 38, apreendido e entregue à Polícia Civil. A oficial ressaltou que os PMs foram ao local devido a uma ligação para o 190.

– Temos isso a nosso favor, há uma origem para termos ido lá, um chamado. Foi aberta sindicância que é um procedimento de rotina, uma apuração, pois houve confronto e uma morte – disse Cristine.

Em relação ao vídeo, a comandante disse:
– O vídeo em questão registra apenas um fragmento da ocorrência. Não é possível fazer nenhum tipo de comentário em cima dessa parte em específico. Estaremos analisando a ocorrência em maiores detalhes, através do Inquérito Policial Militar.



Comando da BM admite falhas


O subcomandante-geral da BM, coronel Alfeu Freitas, avaliou como incorreta a forma como o ferido foi socorrido.
– Não é a forma correta de socorrer alguém baleado. Não necessariamente precisa esperar a Samu. Uma pessoa baleada pode ser socorrida. Mas aquela forma de carregar é incorreta. Nos cursos da BM tem noções de primeiros socorros. Pegar pelas pernas, só o estiramento do corpo já pode causar prejuízo ao ferimento. O transporte do ferido até a viatura entendo que não foi de forma adequada.

O subcomandante ressaltou que as circunstâncias do confronto serão apuradas em IPM:
– No vídeo as pessoas falam “cadê a arma”. Tem todo um contexto. O pessoal (da BM) diz que recolheu o revólver. Tudo vai ser apurado.

Cinco são presos com armamento

Após a confusão e a queima do ônibus na madrugada de terça, pela manhã, a Brigada Militar intensificou o patrulhamento na Vila Cruzeiro. Viaturas da Brigada Militar circularam pela região e PMs fizeram revistas e abordagens.

A ideia era evitar qualquer novo ataque a coletivos. No começo da manhã, por medo, motoristas e cobradores da STS atrasaram por mais de uma hora a saída dos veículos de três linhas. À tarde, o fluxo foi normalizado. Durante a operação, PMs do 1º BPM apreenderam um fuzil calibre 30, uma metralhadora artesanal, um revólver calibre 38 e muita munição.

Cinco homens foram presos com o armamento na Rua Octávio de Souza, a menos de 2km do local dos protestos da madrugada.

Por volta das 16h, o policiamento ainda era reforçado em vários pontos. No entorno do beco onde Bruno foi morto, moradores protestaram contra uma patrulha, que pediu reforços. Uma bomba de efeito moral chegou a ser disparada. Não houve registro de incidentes mais graves.