ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sábado, 15 de novembro de 2014

POR QUE A VIOLÊNCIA AUMENTA

REVISTA ISTO É N° Edição: 2347 | 14.Nov.14


Estudo aponta número elevado de policiais que matam e morrem no País e serve de alerta para ciclo de vingança entre bandidos e agentes da lei que só piora a segurança pública 


Raul Montenegro (raul.montenegro@istoe.com.br)

A polícia no Brasil não só está agindo com violência demasiada como também tem sido uma das vítimas dessa violência, presente em todas as regiões do País. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2014, divulgado na terça-feira 11, os policiais foram responsáveis por seis mortes por dia em 2013. Por outro lado, 490 deles morreram violentamente no ano passado. O estudo constata que existe um profundo fosso separando o Brasil das nações desenvolvidas. Segundo o levantamento, 11.197 pessoas foram assassinadas por policiais brasileiros nos últimos cinco anos – nos Estados Unidos, por exemplo, 11.090 foram mortos pelas mãos da polícia de 1983 a 2012, num período de 30 anos, apesar de lá a população ter 125 milhões de cidadãos a mais. Na outra ponta da crise da segurança pública brasileira está o número de mortes de agentes policiais. Desde 2009, o índice aumentou 86% – saltando de 264 para 490 casos no ano passado. Episódios como o da chacina do Pará, onde dez pessoas foram assassinadas na terça-feira 4, são sintomas dos dois indicadores, que remetem um perverso ciclo de violência: diante da ação desmedida das forças policiais, a reação igualmente raivosa dos criminosos.


RONDA
Policiais invadem favela carioca: agentes da lei foram
responsáveis por seis mortes por dia em 2013

No caso de Belém do Pará, a matança ocorreu após a morte do PM Antônio Marcos da Silva Figueiredo, 43 anos, assassinado a tiros no bairro do Guamá. Durante as seis horas de chacina, moradores compartilharam seu desespero via internet. Um áudio publicado nas redes sociais mostra uma suposta conversa entre policiais. Nele, uma voz alerta: “Não vão para (os bairros) Guamá, Canudos e Terra Firme. Mataram um policial nosso e vai ter uma limpeza na área”. A Polícia Civil e a Corregedoria da PM investigam o caso, e a principal suspeita é que se trate de vingança pela morte do cabo. “Existem casos em que grupos de policiais, num ciclo de retaliações, criam uma espécie de guerra com organizações criminosas. A gente viu algo parecido em São Paulo e acontece em várias partes do Brasil”, diz o tenente da PM Danilo Ferreira do Nascimento, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que publica o Anuário. Nesses casos, afirma o especialista, a violência gera um ciclo interminável de crimes. “Existe uma mentalidade no Brasil de que bandido bom é bandido morto, e isso é levado para o interior das polícias. Força letal não é a saída para a paz pública.” Para melhorar esse quadro, são necessárias diversas reformas institucionais, incluindo treinamentos mais focados em direitos humanos e melhoria da inteligência e da eficiência investigativa, que hoje é muito ruim e fortalece o discurso de que é necessário fazer justiça com as próprias mãos.



Foto: André Mourão/Ag. O Dia