ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

domingo, 17 de maio de 2015

COM APENAS UM PM, POSTOS DA BM FECHAM À NOITE

ZERO HORA 16/05/2015 | 17h36min


Em cidades com apenas um PM, postos da Brigada fecham, principalmente à noite. Quando o PM precisa sair para atender ocorrência ou está de folga e não há substituto, solução é buscar auxílio no município mais próximo

por Marcelo Gonzatto




Em Capão Bonito do Sul, os dois policiais formam equipe com colegas de outras cidades para fazer o patrulhamento Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Quem tem um brigadiano, muitas vezes, não tem nenhum. Em cidades visitadas por ZH ao longo de três dias, o pouco efetivo sujeita os moradores a encontrar as portas dos postos da BM fechadas. Quando o policial precisa sair para atender uma ocorrência ou está de folga e não há substituto disponível, a solução é ligar para um telefone celular – que nem sempre atende – ou buscar auxílio no município mais próximo.

O mais comum é os postos fecharem à noite, mas também podem cerrar as portas em plena luz do dia. Em Ibiaçá, município do Nordeste com 5 mil habitantes e pelo menos cinco agências bancárias e duas lotéricas, não havia nenhum PM atendendo na sede da corporação durante a manhã de 28 de abril. Um cartaz recomendava ligar para um celular e, caso não fosse atendido, para a BM de Sananduva. A situação é a mesma em cidades como Tupanci do Sul, Capão Bonito do Sul ou Muitos Capões.


Durante toda a manhã, ninguém atendeu o celular. Informado da situação, o chefe de gabinete da prefeitura, Luís Carlos de Almeida, telefonou para Sananduva em busca de informações. Ouviu que, em razão da falta de pessoal para cumprir aquele turno, o posto somente abriria a partir das 12h30min.

– É uma situação difícil, porque às vezes há um acidente e perdemos tempo até saber com quem falar – afirma Almeida.

Em Capão Bonito do Sul, a situação era a mesma na tarde do dia 27. O posto fica junto à casa ocupada por um policial militar. No local, havia apenas uma jaqueta da BM pousada sobre uma cadeira e mais algumas outras roupas e brinquedos de criança espalhadas pelo pátio. A cidade estava desguarnecida porque, segundo a prefeitura, os dois policiais foram unidos a militares de outras duas localidades próximas – Caseiros e Ibiraiaras. Assim, conseguem trabalhar em dupla, mas têm de percorrer os três municípios.

– O problema é que nós ficamos a 40 quilômetros de Caseiros e Ibiraiaras. Por isso, mandamos ofício ao Estado pedindo a manutenção de PMs aqui – afirma o prefeito de Capão Bonito do Sul, Danilo Barreto da Costa.



Nem a prefeitura escapa do crime A segurança é uma preocupação entre os 1,8 mil habitantes, que decidiram em consulta popular brindar a BM com uma viatura nova. Já houve casos de violência no município, como o sofrido há cerca de dois anos pela família de Marizete Rauta, 37 anos:

– Meus pais e meu filho estavam em casa quando foram atacados e amarrados por homens armados. Até hoje ele faz tratamento psicológico por conta disso.

Na Páscoa, os bandidos não respeitaram nem mesmo a prefeitura de Tupanci. Roubaram da garagem municipal um caminhão carregado de pneus durante a madrugada, quando o posto da BM estava fechado, provocando prejuízo de mais de R$ 200 mil.

– Acreditamos que eram uns oito assaltantes. Fica até difícil para o nosso efetivo de dois policiais correr atrás – diz o prefeito de Tupanci, Genor José Marcon.

Um policial na rua para 15 mil pessoas



PMs de Sobradinho fazem a segurança de presídio e falta gente para o policiamento ostensivo (Foto: Fernando Gomes)

Em Sobradinho, município de 15 mil habitantes no Vale do Rio Pardo, é comum haver apenas um policial circulando pelas ruas a fim de garantir a segurança de toda a população. Na manhã de 29 de abril, por exemplo, ZH localizou um único brigadiano em ação de patrulhamento fazendo guarda na praça principal da cidade. Mas, na verdade, ele nem deveria estar ali.

Como há uma companhia da Brigada Militar localizada em Sobradinho, os pouco mais de 10 políciais militares disponíveis precisam se desdobrar também em funções burocráticas. Além disso, quatro deles são destacados permanentemente para a segurança do presídio existente na cidade. Como resultado, falta gente para o trabalho de policiamento ostensivo na cidade.

O policial localizado por ZH estava, originalmente, destacado para outra função na sede da companhia. Para não deixar as ruas totalmente desguarnecidas, desdobrou-se também na realização do patrulhamento externo.

No posto da BM, os brigadianos evitam dar declarações por receio de receber reprimendas do comando. Reservadamente, porém, um PM revela intranquilidade com a situação:

– Temos cada vez menos gente, e parte do pessoal tem de ficar no presídio. Há momentos em que não tem ninguém para o policiamento na rua.

O município conta com comércio significativo e cinco agências bancárias localizadas a poucas quadras umas das outras. Em 2014, Sobradinho registrou dois homicídios dolosos, 24 roubos e 355 furtos – quase um por dia. Oito carros foram levados por bandidos.

O comerciante Vianei Cezar Pasa, diretor do Sindilojas da região, conta que já foi assaltado à mão armada em sua joalheria.

– Gera uma sensação de insegurança. Os vereadores chegaram a encaminhar um ofício à BM solicitando pessoal, mas a resposta é de que as perspectivas não são boas devido à situação do Estado – afirma Pasa.