ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

SALÁRIO PARCELADO, MAS DEVER CUMPRIDO



ZERO HORA 10 de setembro de 2015 | N° 18290


SUA SEGURANÇA | Humberto Trezzi



Mesmo magoados e empobrecidos, sem receber o salário integral, com apenas R$ 600 na conta bancária, muitos policiais gaúchos continuam na luta – atuando na linha de frente do combate ao crime. É o caso de Débora Jung, inspetora da Polícia Civil, e Cleiton Pies, soldado da Brigada Militar. O que eles partilham, além dos vencimentos salariais amputados e da carreira policial? Ambos estavam no front desse faroeste em que se transformou Porto Alegre nos últimos dias, apesar da vontade de parar e de gritar por pagamento em dia.

Débora, de plantão na 2ª Delegacia de Polícia Civil (Menino Deus), foi chamada quando um ladrão era agredido por populares. O rapaz, flagrado furtando um carro, foi espancado e já estava com fratura na cabeça quando a inspetora impediu a turba de cometer o homicídio. O criminoso – vejam só – foi salvo pela policial.

– Fazia perguntas para saber se ele estava consciente. Populares começaram a me criticar. Mas fiz o meu trabalho e chamei o Samu. Tive de aguentar vários desaforos, mas fiz minha parte de socorrer. Embora seja ladrão, é uma vida – comenta Débora, que agiu como barreira contra a barbárie.

Já o soldado Pies carrega na perna a cicatriz, lembrança de sua dedicação. Ele ainda se recupera, no Hospital da BM, do tiro que levou no joelho direito ao perseguir seis assaltantes que roubaram um supermercado no Menino Deus, na noite de sexta-feira. A patrulha do 9º BPM foi alertada por rádio do assalto. Ao chegar ao estabelecimento, num Corsa, os PMs depararam com os bandidos em fuga, num Honda Civic – carro mais potente. Apesar de melhor equipados, os criminosos foram alcançados pelos PMs, cercados e começou um tiroteio. Pies foi baleado assim que desceu do carro.

– Senti uma fisgada na perna, mas continuei. Eles davam rajadas, estavam com pistola com pente-estendido (pistola-metralhadora). Dá medo, mas fomos em frente – conta.

Foram três tiroteios durante a perseguição e Pies participou de todos. No último, na Vila Planetário, o motorista da viatura da BM, soldado Gomes, foi baleado (a bala entrou no pulso e percorreu o braço até o ombro). Um dos bandidos também foi atingido, mas eles conseguiram fugir, a pé. Valeu a pena? Pies não tem dúvida.

– Olha, por mais que a gente pense em protestar, quando cruza com o assaltante, o sangue sobe. E a gente vai atrás. Para isso que virei policial, né – resume.

Pois é. Policiais, mesmo sem salário.