ALERTA: A criminalidade e a violência crescem de forma assustadora no Brasil. Os policiais estão prendendo mais e aprendendo muitas armas de guerra e toneladas de drogas. A morte e a perda de acessibilidade são riscos presentes numa rotina estressante de retrabalho e sem continuidade na justiça. Entretanto, os governantes não reconhecem o esforço e o sacrifício, pagam mal, discriminam, enfraquecem e segmentam o ciclo policial. Os policiais sofrem com descaso, políticas imediatistas, ingerência partidária, formação insuficiente, treinamento precário, falta de previsão orçamentária, corrupção, ingerência política, aliciamento, "bicos" inseguros, conflitos, autoridade fraca, sistema criminal inoperante, insegurança jurídica, desvios de função, disparidades salariais, más condições de trabalho, leis benevolentes, falência prisional, morosidade dos processos, leniência do judiciário e impunidade que inutilizam o esforço policial e ameaçam a paz social.

sábado, 7 de novembro de 2015

POLÍCIA DO MEDO



FOLHA.COM 07/11/2015 02h00


EDITORIAL




Antes de designar uma corporação, o sentido original da palavra "polícia" remete às disposições criadas para garantir a ordem e a segurança física do conjunto dos cidadãos. Uma polícia que perca a confiança do público, por reincidir em atentados contra a integridade de indivíduos e o ordenamento legal, experimenta a pior deturpação que se pode imaginar.

Essa é a realidade, lamentavelmente, de muitas forças de segurança pelo Brasil. Não é raro que a Polícia Militar de um Estado carregue a fama de violenta e demasiado letal, nem que sua Polícia Civil passe por inoperante ou corrupta.

Bem representativa dessa grave situação é a pesquisa Datafolha com moradores da capital paulista publicada nesta sexta-feira (6). A maioria (60%) diz ter mais medo que confiança na Polícia Militar. No caso da civil, o temor é só um pouco menos prevalente: 55%.

Haverá exceções regionais, decerto. E não faltará quem pondere que uma categoria inteira não deve ser condenada pela má conduta de alguns agentes. A sucessão de flagrantes de brutalidade policial e leniência investigativa, contudo, enfraquece sobremaneira essa linha de argumentação.

Considere-se o caso da morte do menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10, pelo disparo de fuzil de um policial no complexo de favelas do Alemão, em abril. Não é a primeira tragédia do gênero, no Rio de Janeiro ou noutras partes do país, mas voltou a causar comoção pelo resultado do inquérito.

A PM alega ter sido recebida à bala. A família diz que nem tiroteio ocorria. Fato é que a cabeça do garoto foi alvejada e que a Polícia Civil concluiu que o policial militar teria agido em legítima defesa.

A afirmação soa inverossímil, para não dizer precursora de uma via para a impunidade. O policial estava a cinco metros de Eduardo, que tinha um celular na mão. Do que o agente se defendia?

Outras ocorrências notórias têm reforçado a impressão de que mortes injustificáveis são causadas a sangue frio por policiais –como as de dois suspeitos rendidos pela PM de São Paulo, em setembro, parcialmente flagradas em vídeo.

Estatísticas corroboram a sensação de aumento da letalidade. Em 2014, 3.022 pessoas foram mortas por policiais no Brasil, acréscimo de 37% sobre as 2.203 de 2013.

Não se pode dizer, contudo, que a reputação duvidosa de nossas polícias seja tendência inédita ou recente –não na capital paulista.

Nos últimos 20 anos, período em que a Polícia Militar sempre respondeu a governos do PSDB, todas as pesquisas Datafolha sobre o tema mostraram que a parcela dos paulistanos que confia nessas corporações sempre foi superada pela fatia dos que delas têm medo.

Algo está muito errado. O poder público precisa arrostar a noção incivilizada de que letalidade policial é popular e dedicar-se mais a policiar a própria polícia.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - LAMENTÁVEL ESTE "MEDO". Lamentável ter medo da única instituição do Estado que socorre o cidadão e defende a população neste Brasil de leis permissivas, justiça leniente, execução penal irresponsável e poder político omisso que favorecem a impunidade e o aumento da violência neste país. Os policiais brasileiros foram abandonados pelo estado, enfraquecidos pelas leis, segregados pela justiça, sucateados em efetivos e partidarizados pelo poder político. Não é a toa o descrédito. Hoje eles arriscam a vida enxugando gelo contra o crime.